domingo, 5 de junho de 2011

O Crime do Big Ben 3: A Verdadeira Mentira

“Big Ben, enorme relógio que nunca se atrasa. Digamos que acredito, nestas circunstâncias é claro. Dizem-me os rumores que aqui existiu uma morte à muito tempo atrás. Se não me engano dizem, também, que existiu aqui uma enorme tempestade faz amanhã dez anos. Mas isto não passa de rumores pois, se realmente aconteceu, as pessoas com mais de dez anos recordar-se-iam e, pelos visto infortunados, ninguém se lembra. O último sobrevivente da pessoa que afirmava que tudo isto ser verdade acabara de ir ao cemitério visitar a campa de seu pai e seu irmão. Este ser tem, pelo menos aparenta ter, os seus vinte e poucos anos, e eu mais velho sou, não sei quanto, mas sou, infelizmente é a verdade.
Entrou no cemitério e reparou que estava tudo muito arranjadinho. Existiam vários tipos de flores, begónias, rosas, orquídeas, jarros, tantos que alguém como um ser tão pequeno no mundo como a minha pessoa não consegue afirmar se é ou não verdade, pelo puro aspecto daquela argumentada campa de flores, claro está, os rumores. Diz-se por aí que o irmão deste senhor teve uma grande paixão e que foi esta a causa de acontecer o dilúvio. Outros dizem que foi graças ao pai destes sujeitos que tudo começara. Lady Oska fora morta, esta era a única certeza absoluta. Nunca ficou comprovado o que lhe tinha acontecido. A única pessoa que sabia era o senhor que falecera pouco tempo depois. A família Oska tinha muito que se lhe dissesse. O irmão do senhor do cemitério escreveu uma carta a explicar tudo o que tinha acontecido à sua familiar mais grandiosa. Pelo que se ouviu dizer nunca chegaram a ler a carta. Deitaram-lhe fogo e remédio santo. Algumas mentiras foram espalhadas e aquele ser não conseguiu viver em paz até ao fim dos seus tempos. Dizem que teve cinco filhos e treze netos, o que infelizmente, é mentira. Filho do senhor que tudo começou apenas teve dois filhos. O primeiro faleceu quando tinha apenas três anos de baptismo, logo desde o nascimento isto é. Depois, antes de nascer o segundo, souberam que era gémeo mas que teve uma grande complicação e não pôde nascer. Felizmente, dentro desta infelicidade, existe sempre um pingo de esperança, eram gémeos falsos e assim nasceu saudável, o que se pode dizer neste caso é que, afinal, depois de tantas complicações, nasceu uma menina. Isabel é a pessoa mais importante para o irmão do falecido, aquele que entrara no cemitério e que era filho do senhor que ouviu dizer, em França, que Lady Oska tinha padecido, aquele que, segundo dizem, fugira com a vizinha para escaparem à inundação de Londres. O senhor mais importante de momento, da família Oska, disse, Eu sou aquele que vai desvendar a história de Lady Oska, minha avó, e a irmã perguntara-lhe, Como pretendes fazê-lo se não temos posses, A única maneira é inventar desculpas, temos que inventar uma anarquia se for necessário, eu apenas quero o assunto resolvido, Mas já dois homens tentaram, segundo dizem as pessoas do povo, e nenhum deles conseguiu saber a verdade, Eu sei minha irmã, dizem que o primeiro, pai do segundo, apenas conseguiu provar as mortes relacionadas e o segundo, filho do primeiro e irmão do terceiro, conseguiu provar que Lady Oska fora morta pela encarnação do Big Ben, Como se fosse possível meu irmão. Assim foi a conversa entre dois irmãos Oska.
Algo não estava correcto, havia sempre sol onde eu não estava presente, a chuva e o nevoeiro acompanhavam-me, e isso já começava a chatear. Entrei no supermercado para ir comprar as mercadorias, Aquela carne, aquele peixe, aquela verdura, por favor, não, não espere, a senhora se não se importa poderia me dar antes duas espetadas de peru por favor, Com certeza, dissera aquilo com uma arrogância, normal pois está trabalhando num domingo. Provavelmente estaria, também, aborrecido se tivesse que trabalhar a um domingo. Cheguei à caixa para pagar e ouvi duas mulheres na coscuvilhice, que novidade, mas esta conversa era diferente. À frente da caixa registadora estava um café e eu aproveitei para ir beber um descafeinado e ver se conseguia sacar alguma informação, novidades no café, compras no supermercado. Uma mulher era loira, madeixas certamente, dava para reparar que tinha cabelo preto, muito, e branco então nem se fala, a outra tinha cabelo branco, vá não tão branco, assim para o grisalho, acinzentado, resultado, uma mulher loira com os olhos castanhos e uma mulher com cabelo grisalho e com olhos verdes, que novidade. Deito os sacos no chão para pedir o descafeinado, Não sabes o que aconteceu aos Oska, Eu não mulheri, conta, conta, Então foi assim, ouvi dizer, pois, ouvi, mas não fui eu que perguntei, eu não sou mulher de me andar a meter na vida das outras pessoas, Ah pois não, pensei eu, Ouvi dizer, continuou a mulher, que eles querem a verdade sobre Lady Oska finalmente desvendada, Mas isso já não tinha sido esclarecido, pergunta a outra, a loiraça, Tinha, mas segundo agentes policiais, seguros, também não se metem na vida de ninguém, O Chaves e o Gochaves, só podem ser eles, só não se metem na vida dos outros se não poderem, matutei, Que eles querem, a de cabelo grisalho continua a palrar, com as mão para cima, com dois anéis de prata, um colar de oiro, e dois brincos também de prata com retoques a oiro puro, é encontrar o culpado de tudo, querem saber quem matou Lady Oska, Eu ainda me lembro do tempo em que ela era viva, fazia sempre o que podia pelo povo, desde que aconteceu aquela tragédia ninguém acredita em ninguém, ninguém se entende, Pois é, antigamente toda a gente se entendia, ou se entendia bem ou então entediam-se menos bem, Não havia o entenderem-se mal, Mas agora, os Oska enriqueceram graças à empresa, e tudo mudou, Os pobres mais pobres ficaram, afirma a que amarelo tinha o cabelo, amarelo não verdadeiro é certo, mas não deixa de ser amarelo, e os ricos não ligam aos pobres, É como eu te digo mulheri, se bem conheço a de cabelo grisalho vai dizer agora um provérbio inventado à pressão, murmuro eu, Poucos com muito e muitos com pouco.
A conversa acabou, eu bebi o meu café e levei as minhas compras para casa. Eu tinha arrendado uma casa em frente a uma esquadra da polícia, ah e verdade, ainda não me apresentei, o meu nome não pronuncio pois ainda não tenho direito a realizá-lo, sou apenas uma pessoa normal como todas vocês, a única diferença é que, uma semana após ter ouvido a conversa, recebo uma carta com um bilhete de avião para Portugal, sigo nele e quando chego encontro o ser que está responsável pela família Oska. Ele dá-me um abraço, não sei bem porquê, eu cumprimento-o também, Então meu senhor gostou da viagem, Gostei obrigado, isto vir de Londres para Portugal é outra cousa, pensando bem nunca aqui tinha passado os meus pés, Mas ainda vai a tempo, eu aluguei um hotel para as sete da tarde e, como ainda apenas são agora as dezasseis, tem três horas para passear, Então vou fazer isso mesmo senhor, oh desculpe, não sei o seu nome, O meu nome é Carllos, Muito prazer, E a morada do hotel é, por favor, já agora dá jeito, A morada é Rua Esteves número quatro, Obrigado e até logo, à hora do jantar. Finalmente, pensei eu, estou em Portugal, local nunca visitado por esta insignificante pessoa, e faz sol, jaz luz da vida a meus pés.
Lisboa aqui estou, formosa cidade da qual já bem ouvi falar, então depois do grande terramoto que aqui passou, segundo a história do país, que, por assim dizer, não é muito aldrabona. Portugal isto sim, grande país no passado, o presente está cada vez pior, e o futuro pior ainda ficará, já o dizia o sogro de minha avó, Nós sofremos, tu vais sofrer com fome e os teus filhos também, mas os teus netos vão ser os piores, malditas palavras que agora se reparam na verdade deste país com uma história magnífica mas apesar de ser com fome, muitas com esta, economicamente sofrem. Depois de muito caminhar, já cansado de toda aquela aldeia implacável de sol e de calor, decidi ir-me refrescar um pouco numa sombra fresca do verão e qual o melhor local para o fazer sem ser num café. Lá fui eu e, como é costume, pedi um descafeinado pois, sabendo que o futuro próximo possa vir a ser uma espécie de déjà vu, não posso beber uma pinga de café normal que me começa a dar o sono. Qual o meu espanto quando vejo duas pessoas sentadas na esplanada, Olá, meu amor, Como foi o teu dia ontem, Foi bom, obrigada, mas que chachada, pensava eu, isto só podia ser algo paranormal que me perseguia, Será que sempre que beber um descafeinado terei que ouvir pessoas a falar, ainda por cima calhou-me um casal de apaixonados que não se viam apenas a uma horas segundo a sua conversa.
Sinceramente não sei o que faça aqui, a morte de Lady Oska ocorreu em Londres, todas as outras mortes relacionadas foram explicadas, diz-se que existiu uma grande inundação graças a um homem e à vingança de Lady Oska mas ninguém o recorda, O que vim eu fazer a Portugal se a minha vida e tudo o resto foi praticamente em Londres, segundo ouvi dizer existiram algumas aventuras fora do país, então e depois, Portugal não deve ter sido assim tão importante, mandei o diálogo ao ar, mas ninguém respondeu, então, para que não deixa-se de ser diálogo, fiz-me passar por uma outra pessoa e para responder a mim próprio, Já que não sabes o que vieste aqui fazer, tirando claro a parte em que sabes que tem a ver com Lady Oska, então faz um favor a ti próprio, Qual favor, Tu sabes que nunca aqui estiveste e que todo este país tem uma grande história, porque não aproveitas e desfrutas da tua estadia num país presente no futuro do passado, Tens razão, obrigado, De nada, sempre às ordens, e depois de o diálogo, comigo próprio, que repetição, até parece egoísmo, mas apenas, como alguns pensam, pode ser maluquice, olhei para o lado e o casal de apaixonados estava a olhar para mim, assim como o senhor de bigode branco, cortado com uma máquina de barbear, feita à pressa, cabelo grisalho à moda antiga, tipo pente um, e óculos como as pessoas daquela idade utilizam, por outras palavras, e mais simples claro, gosto de ser simples, apenas digo que o senhor parece alguns dos barbeiros de antigamente. Levantei-me, paguei e dirigi-me para norte, penso eu, pelo menos estava um senhor a apontar para esse caminho. Quem diz senhor também diz estátua de alguém famoso, desconhecido é certo, mas não deixa de ser famoso. Fui a uma biblioteca muito próxima e coleccionei informações sobre a história de Portugal. É claro que podia contar mas não o farei porque seria algo muito secante, falando hipoteticamente e ironicamente, obviamente.
Segui o caminho sempre em frente, para o norte de há bocado, depois da história sabida, assim por alto claro, não tinha tempo para saber tudo, quando chego perto de um senhor que estava simplesmente passeando, Saia-me da frente seu estúpido, não vê que eu estou com pressa, perguntou ele, Vejo sim senhor, mas tenho uma informação para si, Ai sim e qual é, eu não o conheço de lado nenhum, Por isso mesmo não tem nada que estar a fazer acusações contra mim, e um senhor que vem agora de um bordel eu acho que muito menos, Um bordel, diz ele todo embasbacado, Sim um bordel, ouviu bem, Mas porque diz isso, Não é difícil de ver e tenho três provas contra si, Têm, diz ele muito atrapalhado, Tenho sim, aqui vão, primeira, se não fosse tão despistado veria que tem a braguilha aberta e que hoje não é sábado, segunda, quando chocou contra mim deixou cair um papel dizendo “Amor às farturas”, bordel de luxo, quer ouvir a terceira prova, pergunto, ao que ele responde, Não obrigado, retiro tudo o que lhe disse, o que posso fazer por si, peço desculpa senhor estrangeiro, Pois, nota-se pelo sotaque certo, enfim, queria que se fosse embora ter com a sua mulher, tem aliança por isso, Muito bem, adeus jovem senhor não estúpido. Querem saber qual era a terceira prova, não posso contar porque eu também não sabia qual seria a terceira prova, ele apenas caiu que nem um patinha na armadilha dos três vai dois, como eu lhe chamo.
Cheguei ao hotel, finalmente, e fui à recepção perguntar em que quarto me tinham hospedado, Boa tarde, Boa tarde senhor, o que deseja, Eu não sou destes lados e, pelo que sei, arrendaram-me aqui um quarto para passar a noite, se não me enganei na morada, Muito bem, apenas preciso de saber do nome do senhor que fez a reserva, por favor, agora é que estava a bonita, não me lembrava do nome do senhor nem por nada, Procure por Oska, Serve, deixe-me só procurar, enquanto o faço, não demora muito tempo, mas se o senhor quiser pode ir tomar um chá ou um café ali ao bar, Muito obrigado, o senhor depois vai lá dizer, Vou sim, não se preocupe. Segui o conselho do senhor e fui beber um chá. Boa tarde, disse o senhor do bar, ao qual eu respondi, Boa tarde, O que deseja, queria um chá de camomila, por favor, Está nervoso, Não, apenas gosto muito dessa flor, enquanto me prepara o chá, eu posso-lhe contar uma pequena história sobre esta flor, se quiser e, claro, se não o maçar, Claro que não, conte lá então senhor, Muito bem, A camomila é uma planta utilizada à muitos séculos. A sua importância era tanta que os homens sábios do Egipto antigo entenderam que devia ser consagrada ao sol. Além dos egípcios, também os gregos e os romanos utilizavam esta planta como remédio para baixar a febre, tratar doenças hepáticas e combater as dores intestinais, se quiser eu posso também contar-lhe o para que pode ser usada, Obrigado pela informação mas o seu chá já está pronto e acho que o senhor da recepção está a chegar, Pois, já o chateei não foi, Não diga isso rapaz, Mas é a verdade, sou tão chato que os meus amigos de infância abandonaram-me por um “porco-espinho”, forma de expressão, se é que me entende, Você lá sabe, melhor que eu, O seu quarto é o número vinte e cinco, disse o recepcionista, na altura não liguei muito, mas pensei logo que, eu gostava muito de fazer estas coisas e, então, eu tinha a mania de fazer isto com qualquer número que me dissessem, a soma dos números de meu quarto somam o número sete. Há sete dias da semana, sete notas musicais, sete cores no arco-íris, sete sistemas cristalinos, ou seja, Simbolicamente, o sete é o número da perfeição, os dois senhores ficaram a olhar para mim como se fosse um louco, é claro, lá está, qualquer pessoa ficaria, o recepcionista diz-me o número do quarto em que estou hospedado e eu digo que o sete é o número de perfeição. O senhor deu-me a chave que pertencia ao meu quarto, o outro, o que tinha cabelo castanho e olhos castanhos também, disse-me que o senhor Oska tinha pago todas as minhas despesas do hotel.
Subi, de elevador, até ao terceiro andar e, mal saio, vejo logo um vaso muito estranho, pintado à mão, dava para ver pois tinha ainda uns dedos lá espancados, maneira elegante de dizer que tinha ficado com dedos marcados, amarela alaranjada, com o bordo de negro vivo, como se o negro pode-se ser vivo, este, para mim, é negro como o bréu da morte que atravessa a noite da vida, os desenhos no meio eram, respectivamente, conforme fui-me rodando pelo vaso, dois cavalos a puxar uma carroça, um guiador, obviamente, e duas senhoras na parte de trás, no coche, É interessante esse vaso não é, pergunta direccionada para mim por um senhor com bigode branco, óculos redondos e com um relógio de ouro na cintura, Sim é interessante, quer dizer, pelo menos chama a atenção de quem sai do elevador, talvez pelo desenho, talvez pelas cores, Ou talvez por algo mais, O quê senhor, Prazer, o meu nome é Santiago, há quem diga que seria parecido comigo, quem sabe, Santiago de Compostela, Já ouvi falar, mas voltando ao tópico, qual é o outro motivo deste jarrão, Oh senhor, existem muitas razões, mas a mais fácil é, É, Curioso ficou vossemecê, mas agora não conto, descubra o senhor, talvez visitando os sete andares deste hotel, adeus e boa estadia, Obrigadinho, adeus senhor Santiago, Regressaremos a um encontro para nos vermos com certeza, não se preocupe nisso, Gosto em conhecê-lo, conversa estranha sobre um vaso estranho num país estranho para mim, mistérios a mais e ainda agora cheguei a Lisboa.
A porta de meu quarto tinha um quadrado torto, pode-se dizer, apenas, que estava muito bem posicionado, por outras palavras, perfeitamente inclinado, para que parece-se um losango e, por cima deste, a sobrepô-lo, estavam dois números, um dois e um cinco, respectivamente, da esquerda para a direita, doirados, num quadrado vermelho, numa porta encarnada com contorno, também, a doirado. Coloquei a chave na fechadura e o canhão disparou, claro que não é um canhão a sério, aqueles da guerra, obviamente que nada disso estava num hotel, muito menos num país com tantos problemas como tem hoje em dia, é o canhão da fechadura, aquele que faz a porta abrir. De modo elegante a chave entra e baila para todas as rodas dentadas no interior da fechadura, estas como aplauso, ou apreciação apenas, começam também a bailar e assim conseguem criar uma sinfonia brilhante, Até dá gosto ouvir, pensei, este bailado faz um canhão para o fim do festival e, assim, após tão belo espectáculo, dado por concluído, a porta é destrancada e, simplesmente, a pessoa entra, muitas das vezes sem se aperceber que, dentro de uma simples fechadura, quando se coloca uma chave, ocorre algo magnificamente brilhante, um bailado metálico para que algo possa ajudar-nos a ultrapassar um obstáculo, simples como uma porta.
Após ter entrado no quarto a primeira cousa que faço é ir ver a vista do quarto, ao que percepcionei que, num quarto com o número vinte e cinco na porta, com um jarrão de porcelana pintado a mão, a paisagem não podia ficar aquém. Tudo muito bem pintado, mas descrições para quê, quem as quer, talvez os pombos, talvez, agora que falo nisso tenho a mania de descrever tantas cousas que até me esqueço, por vezes, de meu próprio nome, mas nunca o cheguei a esquecer, até o podia dizer mas, isto sim é vida, hotel em grande num país algures desconhecido, anónimo. Talvez seja isso, talvez me chame anónimo, senhor anónimo, fica sexy. Que piada que tenho, sou capaz de me sentar na cama e rir-me a noite toda apenas com estas minhas baboseiras. Por falar nisso, talvez me faça bem falar um pouco sobre mim próprio. Fui estudante numa escola completamente normal, básico e secundário foi realizado, não quis trabalhar, não quis continuar a estudar, ouvi rumores que Lady Oska tinha sido assassinada e, tal como dizia anteriormente, todas as pessoas que tinham mais de dez anos de idade, tal como eu, já passou tanto tempo desde a última vez que pisei um recinto escolar, Saudades, pergunto ao ar, muitas, tinha amigos, isso sim era vida, regressando à normalidade, também não me lembro de nenhum dilúvio, Afinal existiu dilúvio, Será que foi o tal dilúvio criado pelo desejo de vingança de Lady Oska, reencarnada numa mulher, Será que realmente alguém foi morto por um objecto inanimado como um simples relógio que nunca se atrasa, digamos nós, novamente, que acredito nisto, nestas simples e insignificantes circunstâncias. Meu pai nunca fora avistado, minha mãe avistada nunca fora, fui criado num orfanato, ouvi dizer, por algumas pessoas, que meus pais tinham sido presos numa prisão que estava no meio de uma ilha, com dois guardas no portão. Fizeram falta, sim, mas safei-me bem sem eles, tirando, claro, o apoio e a confiança, o amor, necessário para saber como amar os outros e a mim próprio, como arranjar amigos, como fazê-los. Todos no orfanato iam sendo adoptados menos eu, por um lado até me alegrei, mais tempo fiquei no orfanato, até perdi a virgindade, mas isso já não faz parte de eu contar aqui, assim como, também, não faz parte eu contar com Big Ben certo, para sempre. Deitei-me, sem desfazer a cama, e acabei por adormecer, com a minha mala, com os pertences, em cima de um cadeirão, também este, vermelho com fitas doiradas, até a colcha era assim, muito pomposa, com o espírito carnal que existe em todos nós. Boa tarde e, ainda bem, boa sesta.
Acordei com o barulho do telefone da minha habitação, Boa tarde, digo com voz de sono, Boa noite senhor, peço desculpa pela interrupção mas, depois de me ter acordado é que pede desculpa, pensei, está aqui um senhor que quer falar consigo, Muito obrigado pelo comunicado, eu desço de imediato, vesti algo mais apropriado e desci. Passei pelo jarrão e consegui ver que estava cheio de pó por dentro, já não devia de ter sido passado por água há algum tempo, chamei o elevador e desci. Quando saí, no rés-do-chão, reparei que estava tudo decorado com flores, rosas vermelhas, rosas rosas, rosas amarelas, corações espalhados por tudo o que era lado, Boa noite, disse ao recepcionista, o senhor telefonou-me para me dizer que alguém estava à minha espera, Boa noite, senhor, estão no bar a sua espera, é um senhor com casaco amarelo, Obrigado. Dirigi-me para o bar e vi lá muita gente, o hotel começava a ficar atolado, vi algumas pessoas com martinis, vodka pura, vodka misturada, Coca-Cola, para os pequenitos, e até sumo de laranja natural, para as senhoras idosas e, ou, mais emprenhadas. Pedi um martini também para mim e foi então que alguém me tocou no ombro esquerdo, Olá senhor, Boa noite, É o senhor que veio para Portugal desde Inglaterra a pedido do senhor Oska, Fui sim e o senhor é, O meu nome é Jorge de Andrade e queria convidá-lo para sairmos os dois esta noite para, o que eu costumo fazer e chamar de, passeio nocturno, Por mim é na boa, peço desculpa pelas palavras de calão, por mim seria óptimo, assim está correcto, Não se preocupe com isso, estou habituado, é o que dá em ser professor nos tempos modernos, aprende-se sempre qualquer coisa nova, Então pode ser por volta das nove da noite, Pode sim, bazamos do hotel às nove, Estou a ver que bazar já faz parte do seu vocabulário, Claro que sim, temos que nos modernizar se queremos sobreviver nestas pessoas que, no futuro, serão aqueles que matarão o povo por fome de conhecimento. O senhor saiu. O recepcionista, quando eu ia a subir para o meu quarto, chamou-me e, após ter recebido um telefonema, diz-me que o senhor Oska não se podia encontrar comigo naquela noite, dizendo para eu aproveitar o resto do dia porque a conversa tinha sido mudada para a manhã do dia seguinte, Já agora posso-lhe fazer uma pergunta, Claro que pode, senhor, respondeu o recepcionista, Porque está tudo enfeitado com rosas de tantas cores e corações, Oh meu senhor, riu-se um pouco, baixo para que não me apercebe-se, algo que acabou por não acontecer, mas nada lhe disse, estes são os preparativos para o dia mais importante da semana que vem, E que dia é esse, se me permite perguntar, Claro que permito, senhor, é o dia de S. Valentim, Ah, obrigado, e ausentei-me para o elevador. Tinha-me esquecido que um dia como esse existia no meu calendário, era o dia, para muitos, mais romântico de todo o ano e, para mim, não tem qualquer significado. Segundo sei o dia de S. Valentim é dia catorze de Fevereiro e, portanto, como o senhor disse, é para a semana, quarta-feira da semana que vem, ainda falta uma semana e um dia. Hoje, terça-feira, sete da tarde, a única cousa que realizara no meu quarto fora um banho bem tomado, tinha que aproveitar aquilo que me ofereciam não é verdade. Despi as meias e, por fim, os meus boxers, liguei o chuveiro e, primeiro que a água desse quente ou morna era um castigo mas, entrei. Lavei a cabeça com um champô que estava lá guardado e o corpo com o sabonete que, normalmente, todos os hotéis têm. Para não estragar algo que costumo fazer, e como estava sozinho à tanto tempo, obviamente tinha que me divertir com algo não é verdade, apesar de ser bom cantor, eu cantei, mas com o pífaro debaixo de água. Direito que nem um pau lhe peguei, notas magníficas suaram e, alegremente, o maestro ficou tão contente que até abriu o champanhe, é a maneira mais divertida que encontrei para dizer, pura e simplesmente, que a masturbação é algo que tem que se dar graças. Depois de todo este espectáculo interminável, saí da banheira, depois de me passar por água novamente, ou acham que sou assim tão burro, obviamente, e fui vestir algo mais desportivo. Para mim algo desportivo é algo a que eu possa dizer normal. Um par de calças de ganga tinha trazido, escolhi umas calças, três camisas trouxe, escolhi uma t-shirt pois, apesar de estarmos na estação do ano que eu considero mais bela, a Primavera, estava muito calor, mesmo à noite. Já eram nove horas quando saí do quarto para ir ter com o senhor Jorge de Andrade.
Noite estrelada, calor de verão, estrelas de ursa em peixes, apenas digo, Eu sobrevivi para ver este magnífico céu, valha-me Deus. Fomos sair ao lado de um restaurante, Quer ir comer senhor Andrade, Não obrigado, estou cheio, De ar, Não, não, comi antes de vir, diz isto a rir, então e o senhor, já comeu, Já comi qualquer coisita, mas dá para me ajudar durante toda a noite até de manhã. Passeamos e falamos sobre cousas normais, vida, morte, sonhos, sucesso, sueca, vídeos, pornografia, história de Portugal, ele, história de Inglaterra, eu, Ainda não percebi foi o que vim fazer a Portugal, Pelo que sei o senhor recebeu um convite do senhor Oska para vir a Portugal, Como sabe, já à pouco o senhor me pergunto algo semelhante e eu fiquei na duvida como é que saberia de algo que, pelo menos eu, não contara a ninguém, Eu sou uma espécie, se é que se possa chamar de, embaixador da família Oska aqui em Portugal, os assunto que a família inglesa tem que tratar neste país, assim como problemas financeiros ou outro tratados e empresas, não sei se sabe mas a família Oska está a pensar em abrir uma pequena empresa para ver se ajuda a diminuir o número elevado de desemprego dos portugueses, sou o que trata dos assuntos “oskianos” em Portugal Central, o senhor Carlos Araújo trata dos assuntos do Norte, Jorge Monteiro do sul, Mariana Neto dos Açores e Margarida Vela da Madeira, Então quer dizer que o senhor Oska confia em si, Penso que sim, pelo menos eu tenho passado muito por este emprego, Então quer dizer que o senhor lhe contou que eu vinha aqui, Contou pois, e pediu-me para lhe dizer para aproveitar o hotel o máximo que conseguir, porque ele paga todas as despesas, É um senhor muito empreendedor dos seus “homens”, se é que eu possa ser chamado assim, por acaso não sabe o que eu vim aqui fazer, Pelo que sei, diz o senhor, muito sincero, o senhor veio a Portugal realizar alguma tarefa relacionada com a morte de Lady Oska, como existem rumores que tenha existido um dilúvio em Londres mas que ninguém nada se recorda, passa-se o mesmo aqui em Lisboa, algumas pessoas falam nisso mas, todas as outras pessoas, os jovens, principalmente, não recordam o desgosto de muitas famílias e de muitas almas penadas que sofreram com o terramoto deste lugar, Também ouvi falar, mas tirando as nossas conversas da desgraça, agradeço o que o senhor me disse e, deixe-me desde já, oferecer-lhe um charuto, Obrigado, mas você não fuma, pergunta, Não, eu não fumo, mas fica sempre bem um inglês andar com charutos no bolso interno da casaca, falando um pouco de outros assuntos, divagando é certo, o senhor, se me permite a pergunta, é de onde, Eu sou de origem portuguesa, Sim eu isso já percebi mas, tirando nacionalidades, de que terra é o senhor, Eu nasci em Setúbal e passei o rio, vindo aqui viver. Com esta conversa, simples para uma boa noite, desencontramo-nos e cada qual dirigiu-se para os seus aposentos, eu, por acaso, encontrei uma nota de vinte euros no chão, não é algo normal encontrar dinheiro no chão, muito menos algo de tão grande valor, quer dizer à bem maior, mas esta é muito importante para a maior parte das famílias, já estou como a senhora de cabelo grisalho do supermercado que dizia o seu ditado inventado, “Muitos com Pouco e Poucos com Muito”, cheguei ao hotel e percepcionei que tudo estava muito bem arranjado, cousa para aqui, cousinha para li, cousa acolá, cousa enfim, tanta cousa que tinha que ir cousar para o meu quarto…Não se começa com pensamentos perversos, apenas fui dormir para o meu quarto. Boa Noite.
Levantei-me e a primeira cousa que fiz foi, após me espreguiçar, eu quando digo primeira acção quero prenunciar primeira acção básica diária e espreguiçar não faz parte dessa estrutura, foi lavar os dentes. Vesti as mesmas calças de ganga de ontem, fora apenas um passeio completamente normal, não estavam sujas, e uma camisa azul escura, com os botões abertos, e com uma t-shirt negra ou azul escura, não me recordo bem, e mesmo que me recorde não sei distinguir bem estas duas cores. Calcei um par de ténis normais e desci para o bar onde, apesar de ser um local para as pessoas conviverem e beberem uns “copos”, também servem pequeno-almoço. Bebi sumo de laranja natural com dois cubos de gelo, tanto calor que está num simples dia de primavera, não e nada normal, e comi uma simples sandes com mortadela com azeitona. Quando saí do bar o recepcionista já trabalhava e eu disse-lhe que se alguém me telefonasse para deixar recado que eu depois atenderia ao pedido, Muito bem senhor, farei o que me pediu mas, antes que se vá ou que me esqueça, ligou o senhor Oska a dizer que, se não se importar, para vir almoçar aqui ao hotel que ele precisa de falar consigo, Obrigado, então ao almoço aqui estarei, espero. Bom Dia.
Eram apenas oito da manhã quando acordara e, graças a ser madrugador, estava perto de um rio às dez horas, ou seja, a tempo de chegar por volta das treze para o encontro com o senhor Oska. Ao ver passar os barcos fui recordando a minha vida, pobre e miserável, a vida era pobre, não eu, quer dizer, eu não sou, nem nunca fui rico, mas é aquele tipo de vida que dá para nos aguentarmos no mundo. Gostei muito do passeio por Lisboa e por esta grande história viva nacional. Todas as estátuas, todos os monumentos, todos eles contam a história de Portugal, claro é, que é a capital deste povo e como tal tem que realizar os feitos heróicos do presente, apesar de Portugal estar na cauda do dragão da fortuna e no ânus da superioridade. Adoro Portugal assim como adoro Inglaterra, não posso dizer que, apesar de ter nascido em Inglaterra, que eu saiba, não goste muito de Inglaterra, não seria verdade, a verdade é que a vida inglesa é para ser esquecida e o que tenho que viver agora, neste momento crucial, de estar num local tão importante para mim, importante não sei bem o porquê, nunca aqui estivera anteriormente, a vida portuguesa, esta oportunidade única que me foi concedida. Estava a regressar para o hotel quando ouço um ambulância, aflita ela ia, Pobre pessoa que ali vai dentro, disse um senhor que passara por mim, Pobre porquê senhor, perguntei, Não consegue ver, vê-se que não pertence ao povo de Portugal, se pertence então esteve muito tempo fora, Eu já reparei em algumas diferenças assim como os automóveis andarem nos locais trocados da estreada, no da direita, enquanto, a inglês ver, é à esquerda, mas apesar de não ser daqui, ou de não estar aqui à muito tempo, como afirma vossemecê, eu não estranhei, Então quando uma ambulância vai assim para caminho do hospital é porque já está muito mal a pessoa que ali vai dentro, Espero que se salve, que os médicos façam o melhor que conseguirem, Esses, diz isto com voz de repudia, dizem que fazem tudo para salvar toda a gente mas, ao fim e ao cabo, são uns interesseiros de primeira, Como assim, Não interessa, diga-se apenas que Ele salve a pessoa.
Tão distraído ando a passear por Lisboa, a caminho do hotel, que nem reparo que estou a passar em frente a uma igreja. Acho que é algo normal as pessoas andaram pelas ruas o que significava que, para cidade que Lisboa é, grande, serena, quer dizer é a capital certo, pergunta retórica simplesmente, a cidade lisboeta é anormal. Poucas pessoas se vêem na rua, pouco trânsito de repara, apenas os pássaros sobrevoam a cidade. Olhei para cima e reparo eu uma manada de pássaros, eu sei muito bem que manada não é para pássaros mas, apesar eu saber os nomes, andei na escola ora essa, pareceu-me o mais apropriado para a altura. Cinquenta pombos contei, quarenta contou o senhor que ia ao meu lado, Parece que não sou o único a ter tempo e disponibilidade para observar como é belo o céu de Lisboa, Verdade senhor, responde-me, é algo magnificamente giratório o modo como cada um, subjectivamente, claro está, a percepção do céu como mente geral de todo o mundo, O senhor pensa que o céu é algo divino, Penso que, apesar de ser tudo divino, é algo que nos foi proposto para conseguir o direito de se ser humano, Não estava esperando essa resposta meu caro, O meu nome é Horácio, o meu disse-o ao senhor, mas não importa se saber qual é por isso apenas Horácio ficou nas mentes inoportunas, subjectivas, claro está, do céu, tal como o senhor tinha dito. Senhor para setenta e tal anos vê as cousas tal e qual como eu, insignificante pessoa, Sabe um coisa, pergunta-me, à qual eu responde, Não mas essa cousa vou passar a saber assim que o senhor ma contar, É simplesmente perfeito como as pessoas pensam que um simples ser, que fora por eles inventado, como alguns pensam, possa ter tanto poder, este que pode mover montanhas, criar Natureza à moda antiga, De quem fala, senhor, Eu prenuncio o seu nome em vão, o seu nome é tão grandioso que apenas um simples paladar do seu ser é a audição d’Ele, acho que tenho que ir fazer o almoço, se não se incomoda, De todo, obrigado pelo passeio e pela agradável conversa senhor Horácio, Voltaremos a ver-nos, Assim o espero. Estava tão distraído a pensar nas palavras do senhor que apenas dei conta que já tinha chegado ao hotel quando tocaram os sinos da igreja, ou de outro local. Toque tão divinal, o dos sinos, ninguém o consegue igualar com um simples ser, som tão profundo que acorda a alma daquilo que ela realmente pode vir a ser ou do que ela já foi, enfim. Entrei e vi que as decorações já estavam todas decoradas, como eu dizia sempre para, apenas, enfatizar uma ideia, Boa tarde, o senhor Oska já chegou, Não senhor, responde-me o recepcionista, então queria-lhe pedir um favorzinho, eu estive a passear, não estou sujo nem nada que se pareça, mas gostaria de tomar um banho, Claro que, Desculpe do interromper mas ainda não acabei, Peço desculpa senhor, eu apenas queria ajudar, Eu sei, mas o senhor não me pode, quer dizer poder pode, mas não quero que o senhor me vá dar banho, quero apenas que me telefone para o quarto assim que o senhor Oska der sinais de vida, Ai que palavras senhor, Porque diz isso, Aqui nunca ninguém falceu, Neste hotel, Não, nesta pequena cidade que pertence a Lisboa, todas as pessoas que aqui vivem, sabe-se lá o porquê, sentem uma necessidade de abandonar esta cidade para Lisboa em si e pouco tempo depois acabam morrendo, Então porque é que as pessoas ainda se dignam a ir para Lisboa, cidade maior, Muitas dizem, em cartas, que não queriam sair daqui mas que a vontade fora maior que elas, Muito obrigado pela informação, Não falando que já faleceu um membro muito importante da família Oska, Lady Oska, Oh já ouviu falar, Já e, agora, se não se importa, eu gostaria de tomar meu banho, Com certeza, não o empato mais, Obrigado e bom almoço. Subi e fui tomar o meu banho, eu não estava mal disposto mas sentia-me cansado, apesar de não me ter cansado pelo caminho que fiz, por isso decidi tomar um banho rápido de chuveiro antes que eu adormece-se na banheira, se, por acaso, banho de banheira cheia fosse. Passei pelo, já famoso, por mim é claro, vaso e pela porta de meu quarto, apenas me descalcei e me despi, pumba, banheira a levar com a água nas costas. Brincar sim, brinquei outra vez com aquilo que Deus me deu, melhor, com aquilo a os meus pais me deram, para que serve quando não temos mais nenhum contento, quer dizer, quando estamos a espera de alguém importante e estamos num quarto de hotel sozinhos, temos que nos saber orientar, nesse caso, para nor-nordeste.
Vesti-me como se fosse para um simples almoço, nada formal, apenas umas calças de ganga clara, não muito porque eu sou claro de nascença, ironia do destino, um camisa azul claro aos quadrados azuis-escuros, algo que me fora oferecido pela directora da instituição onde eu morava quando saí de lá para um breve e duradouro adeus, uns ténis simples, a imitar uma marca conhecida, e nem me penteei, o meu cabelo é esbelto de nascença por isso não são necessárias mariquices para me fazer mais bonito. Desci pelo elevador mas, apesar de já estar habituado, senti que estava a ser observado, voltei-me e apenas vi o meu reflexo, aquilo que normalmente está numa caixa que nos leva para cima ou para baixo, quando existe energia eléctrica, mas que eu não tinha percepcionado que ali estava um espelho. Saio da maquineta e dirijo-me para o balcão central, O senhor Oska pede para ir lá fora para esperar por ele, Ai, primeiro diz cá dentro depois lá no cu do conde, agora já é lá fora, Ele também disse para apanhar a boleia de um carro amarelo que iria estar aqui à frente. Saí do hotel e reparo que está um carro amarelo, muito brilhante graças ao sol que lhe batia espelhadamente, com um autocolante, no vidro da janela da porta da frente do lado direito, onde estava escrito, Senhor Oska boleia aqui, e então assim o fiz, entrei e o senhor disse que iríamos a um local importante para um almoço de negócios, eu não liguei e disse-lhe para ligar o carro. Assim fomos, descansados, pelo menos o condutor porque eu estava cada vez mais nervoso por não saber a verdadeira razão de aqui estar, devagar estava o carro pois, apesar de não estar muita gente naquela cidade pequena de Lisboa, estava, à saída, uma grande bicha, como dizem as pessoas que não sabem que a palavra correcta é fila, ou não sabem ou apenas a querem não dizer para serem algo mais do que apenas passagem de olhos, para conseguirem ser, por exemplo, motivo de conversa, isto é, claro, apenas pelas pessoas que sabem que também não é aquela a palavra. Passamos por uma ponte que tem, segundo o senhor da boleia me disse, o nome de ponte 25 de Abril, talvez pela grande revolução, a chamada, na minha terra de, revolução dos cravos, revolução sem guerra, de 1974, e também soube, também pelo mesmo senhor, que existe outra ponte, a chamada, ponte Vasco da Gama, este sim navegador conhecido, mas tirando todos estes elogios, o grande português que eu sempre ouvi falar, pelo menos eu naquela instituição e todos os que lá moram, é Luís de Camões.
Chegámos a um outro hotel, todo pomposo este, com candeeiros acesos, lâmpadas cor de prata e candeeiros com de oiro, carpete vermelha a entrada bordada, dos lados, com tracinhos doirados, não tinha comparação com o hotel em que ficara e este já era bastante óptimo, imaginei que para um hotel tão pomposo por fora, por dentro também devia de ser assim, o senhor Oska não está assim tão na falência como ditam os rumores de Londres, ainda em Lisboa estamos. O senhor motorista vai embora mas, infelizmente, como é que alguém tem o descaramento de mandar alguém ir buscar alguém a um local para outro sem lhe dar o que, nesta e todas as alturas foi, infelizmente, novamente a ironia do destino, a crueldade do que o ser sempre tentou realizar, os bens necessários para si próprio, mas não aprofundando muito, tive que pagar ao senhor que me trouxe desde o hotel para O Hotel, como era o nome do hotel onde ficara, o qual não estranhei, hotel tão grandioso tinha que ter com valor igual.
Devagar vi, por detrás de mim, assim muito devagarinho, o sol a dormir entre os extremos do seu breu, a noite chegara, cedo é certo pois, apesar de ser principio do ano, já se estava na Primavera, altura do ano em que os dias começam a alargar, uma noite tão fantástica que até apetecia ficar ali, ao frio, sim ao frio, já estava frio naquela noite, a temperatura desceu bastante em tão pouco tempo, a contemplar as estrelas, contar quantas eram, de que cor, a sua natureza química, biologicamente falando é claro, ver como as aves se movem à noite, poucas é certo, mas continuam a existir aves que o fazem, aquelas que têm pequenos dentes e que sobrevoam os sítios escuros, cegos, mas com uma caça excepcional com essa contrapartida, boca com sons agudos que pouco alguém consegue topar, ver os animais, tanto racionais ou não, a passarem pela rua a, alguns, é óbvio que mais os irracionais mas, a necessidade é tanta, ou por dinheiro ou apenas por prazer, os racionais também, realizarem, a consumarem-se uns aos outros, no acto sexual, como eu acredito, eu não sou muito de acreditar em contos de fadas e sei que, infelizmente, ocorrem muitos perigos nas ruas das grandes cidades, não é que Lisboa não seja grande pois, iludindo algumas pessoas o parece, é pequena, pequenissimamente enorme na comparação de uma formiga e enormemente pequenorme num olho ao Big Ben. Subi as escadas, claro que andando pelo tapete encarnado, vermelho me habituo dizer mas, sei ser educado, estou em local chique e tenho que me comportar como tal, o vermelho é de pobre, como diz a senhora que está muitas das vezes na coscuvilhice à entrada do supermercado, se não me enganei a contar, e se a memória não me falta neste preciso momento, relembro a todos, especialmente ao senhor, que a escada tinha cerca de sete andares, um número especial na sorte daqueles que acreditam, assim como o vinte e cinco da porta de meu quarto, temporário é certo, mas continua a ser meu enquanto eu ali estiver, isto é, enquanto o senhor Oska pagar a minha estadia no hotel, eu aproveito e digo que é meu, porque casa minha só tive uma, foi o lar e mais nenhuma, aquela em que estou agora fora alugada, lá em Londres, ao senhor que estava mais em contacto com o local onde passei a minha infância e, como lhe disseram, ainda estou para saber quem, talvez a Romância, ele arranjou, com todos os preparativos e aparatos necessários para uma mudança daquela brutidade, não que tivesse sido bruta fisicamente e, ou, psicologicamente, apenas porque fora algo que me custou muito, abandonar uma casa onde vivi uma porrada de anos, o sete simboliza algo de especial na minha vida que, como estou à porta de um hotel, não faz muito sentido contar, e mesmo que tivesse o tempo para disponibilizar, não é assim tão importante como o nome de minha pessoa. Chego ao topo das escadas, também sejamos sinceros, apesar de me ter custado muito subir estes sete degraus, apenas sete sejamos realistas, sete são as cores do arco-íris e nunca me custou tanto contar até sete, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, finalmente, vejo uma grande porta muito chiquíssima, mas não vou entrar em relatos porque seria muito determinista e nada realista, por vezes acontece-me isto, quero falar, como estou agora a fazer ao mesmo tempo que me dirijo para a porta d’O Hotel em Lisboa, e vou apresentando argumentos tais que me vou dispersando da face da terra para a face da minha terra, não muito diferente desta, apenas diferente à minha maneira. Cheguei à enorme porta, Boa noite cavalheiro, Boa noite senhor, Não o vejo com fato de gala para entrar na cerimónia desta noite, Eu também não pensei que fosse necessário tal cousa, Nome por favor, pediu o porteiro, Não interessa o meu nome, apenas me dirigi a este hotel, grande de estrutura mas pobríssimo em simpatia, porque mo pedirão para fazer, Está a chamar-me de antipático, Claro que não, vá procurar o senhor Oska e pergunte se não está à espera de ninguém, Já volto, disse o senhor simpatia em pessoa, mas nem pense desaparecer ou entrar sem eu saber, Claro que não, E não me volte a chamar de senhor antipático, Eu nunca o chamei tal afronta, Mas metaforicamente chamou, Não pense assim, pense apenas que lhe chamei burro malcriado e sem tesão necessária para atender pessoas de importante carácter, que não é o meu caso, como, pura e simplesmente, um ironia do destino e, talvez, como uma comparação, sem ofensa, obviamente, aos burros, que, mesmo mal dispostos, mostram sempre simpatia, Mas que merda é que o senhor está a dizer, O que se passa aqui, mesmo quando o porteiro me vai para bater aparece Oska, o senhorio que me mandou chamar aO Hotel, O senhor Tiago ia bater no meu convidado, Claro que não, Não foi o que pareceu, Peço desculpa de interromper, digo eu, sem intenção de estragar tão bela conversar obviamente, acho que vocês deviam de para isso um bocadinho, eu tenho que ir à casa de banho, oh esperem lá, ao WC, é chique, Muito bem pode entrar senhor sem nome, Sem nome mas cem nome, Não percebi, é o normal de uma pessoa simpática como o senhor. Assim foi como eu entrei no hotel aparatoso de Lisboa alta, senhor Oska chegou a tempo de eu levar um murro, mas o senhor porteiro, Tiago de nome, ia levar muitos a seguir, digamos apenas que o senhor que me deu comida, cama, e bilhete para Portugal Lisboa mais precisamente, salvou o senhor cujo nome começa com a vigésima letra do abecedário inglês, de onde eu sou originário, e termina num simples O, de Olho aberto como o Olho que Olha o ser Olhante dos Olhos ofegantes do ser com dois Olhos, simples aparte, impoliticamente correcto, é certo que estou a ser um tanto ou quanto, como se não merecesse, mau para com o senhor Tiago de Almeida, nome que venho a saber mais tarde. Vou ao WC, chiquíssima palavra, e volto num abrir e fechar de olhos. Tudo muito arranjado, palacetes de ouro com oiro agarrado, tudo de smoking caro, tudo de fato de gala, tudo de vestido de licra fina com decote em V, mesmo a saltarem os melões que são colhidos, maduros é certo, da horta onde o senhor que tem a salsicha sempre a mão está, agora que penso bem, tantas mariquices que o Homem se tornou, uns são ricos, outros pobres, outros nem tanto nem tão pouco, mas nascem todos da mesma maneira, modo este que é o simples acto de um ser, masculino dá sempre jeito, chegar-se perto de um donzela em apuros com a sua espada no punho e salvar a sua horta da senhorita, mata o monstro, por vezes também chamado virgindade, abrindo os portões com a sua espada, largando o seu glorioso espumante pelo caminho, artefacto este que vai dar origem a uma semente que é plantada nesse jardim de Vénus que vai dar origem, das duas uma, normalmente é sempre assim, ou homem ou homem, ou mulher ou mulher, ou chato ou chato, ou Humano ou Humano, enfim, como os animais irracionais também procriam, muitos deles, como os humanos, apenas não se cheira o cu uns dos outros, por exemplo, algo muito importante para os cães memorizarem algo, originar um ser. Bebi um pouco de ponche e, reparei muitas vezes mas não digo nada de quem fora, uma senhora olhou para mim, olhou com uns olhos, nada como os do senhor Almeida, Tiago, muito melhores, sem dúvida alguma, estes que tinham o seu brilho azul mercuriano, metileno do ser infernal que existe por todos nós e em cada um de nós, aproximei-me, Boa noite menina, Boa noite menino, que simpatia a sua dizer algo a alguém que reparou em alguém tão esbelto como o senhor, disse isto com uma voz docemente brilhante, Está a dizer que, mentirosamente, esbelto sou, mas apenas me viu uma vez, Mas não são as vezes que encontramos alguém que tornam a pessoa mais, ou menos, bela, Geralmente é assim, Mas a primeira impressão é sempre a mais importante, quer dizer, a menos modificável, a mais difícil de, Eu, quando ia perguntar se quereria sentar-se, e falar mais calmamente, sou chamado pelo senhor Oska para ir para o escritório falar de assuntos importantes visto que, tinha estado fora durante uma semana e veio naquele dia, Madrid, Itália, Vaticano, eu sei que o Vaticano fica dentro de Itália mas sempre foi considerada como uma simples terra diferente, nem acho muito bem nem muito mal, apenas acho, China e Portugal, a sua irmã Oska havia chegado a Lisboa. Fomos de elevador até ao oitavo andar, número oito, não, não gosto, saímos e nada estava decorado, apenas estava igual ao que se poderia ver na entrada, onde a festa decorria, ainda estou para saber que festa era aquela, enquanto que, no hotel pobre em que me mandaram, tudo era diferente e especial, até um simples vaso que estava sempre que se saía do elevador, felizmente pobre era para me separarem de gente rica e, acho muito bem, aliás Portugal precisa de ajuda, tanto monetariamente como beneficamente, colocar num hotel pobre, como muitos lhe chamam, eu nunca mais, rico em cultura e simpatia, esta boa obviamente, para ajudar a superar a crise de muitos. Chegámos ao escritório, nada de extraordinário, duas cadeiras, uma secretária e outra cadeira, vista para o estacionamento e, assim sendo, para a entrada do hotel. Lembrei agora que sempre chamei a directora da instituição onde passar a minha infância de avó, e também me lembro que as palavras que o sogro dela proferia eram palavras verdadeiras, mas regressando ao tema de conversa, agora, dentro do escritório, estão eu, Carllos e sua irmã. Sentei-me numa cadeira parecida com aquela que estava no quarto do hotel onde eu ficara hospedado. Carllos ficara do outro lado da secretária, do lado com a janela, com a cadeira chique e com a maneira de ser arrogante demais para o meu gosto. Sua irmã tocara-me no ombro, Olá senhor, não sei o seu nome mas também não tem interesse, senta-se na cadeira que se encontrava ao lado da secretária, ou seja, nem perto de mim nem do irmão, estava equidistante de nós dois, fazíamos, os três, um triângulo onde a irmã de Carllos realizava um ângulo de noventa graus connosco, mas regressando ao assunto, meu irmão Carllos e eu gostaríamos de falar consigo e pedir-lhe um favor, Com certeza senhores, apenas gostava de saber o vosso nome senhorita, Meu nome é Florbela, Como Florbella espanca famosa e formosa dona de Portugal, conhecida por mim no local onde ficara a viver a minha infância, É por isso mesmo, começa a falar Carllos Oska, que nós o chamámos aqui, por aquilo que sabemos do senhor você não tem conhecimentos da sua família e como, emprego, não está nada de bom, damos-lhe a oportunidade de receber mil euros por mês se nos ajudar a descobrir pistas acerca a nossa avó, Lady Oska, apenas sabemos que morrera perto do Big Ben e que tem origens estrangeiras, e então, após algumas pesquisas concluímos que tem origens portuguesas, Ou seja, interrompo eu, vocês têm um negócio inglês mas a vossa família é portuguesa, o que quer dizer que podem salvar Portugal da sua pequena crise mundial apenas com um estalar de dedos pois, apesar de Inglaterra não ser melhor que Portugal, na minha opinião, o negócio inglês é muito maior, obviamente, do que se fosse negócio português, Sim também, mas o que queremos é que, com base nesta carta que recebemos de alguém desconhecido, anónimo acho que ficaria muito mais apropriado como palavra de um senhor tão grandioso como Carllos Oska, que o senhor, juntamente com algumas pistas que lhe iremos entregando, investigue a vida passada de nossa avó para que, após uma breve avaliação, se possa dizer, afirmar, lá estou a pensar o que ficaria melhor na boca de alguém assim, o que acontecera a Lady Oska, nossa avó e senhora de bens memoriais, Mas para vossemecê, e sua irmã, me possam enviar essas tais pistas é porque já têm alguma informação sobre o seu passado, Sim isso também é verdade, temos o que se pode dizer de catorze por cento da verdade absoluta de cem por si mesmo, o um da realidade intragável do inconsciente indominável, Se eu bem percebi vocês querem que eu investigue sobre algo que vocês já têm alguma certeza, mas, se não me engano a estes respeito, o que poucas vezes acontece, enganar-me apenas por causa de uns raciocínios, eu tinha a alcunha de fala-barato por isto mesmo, querem-me testar para ver se sou de confiança, não é isto verdade señoritos Carllos e Florbela, É sim, afirma a irmã mais nova, a única neta de Lady Oska, pobre donzela morta como alguém que não se pode confiar, Nós vamos-lhe dando toda a ajuda monetária que precisar, todos os meses receberá aquele dinheiro estipulado anteriormente e receberá, também de avanço, uma outra meia parte desse dinheiro, ou seja, o seu ordenado mais o dinheiro para realizar as coisas, cousas por favor senhor Oska, não suporto coisas, é muito objectivo, cousas poucas pessoas dizem e tem um ar mais subjectivo, mal sabia eu que isto tinha um significado importantíssimo futuramente, Ou seja vai-me dando metade para eu ir organizando buscas e bilhetes de avião e assim, Claro. Saí. A conversa não podia ter sido muito mais longa, o que dissemos a seguir foram apenas cousas de pouca importância. Saíra do hotel ainda cedo, fui apanhar um táxi perto, cheguei ao hotel onde hospedado estou, ou estava, o cansaço já está a atrofiar o estômago geral que pensa aqui em cima, cheguei ao meu quarto, fechei a porta à chave, sempre com dois trincos, por duas razões, uma é a segurança, a outra é apenas para ouvir o belo som das meninas bailando dentro daquela maquineta humanizadamente fabricada, e fui-me deitar, mesmo vestido. O mesmo faço agora. Boas Noites a ‘té depois.
Para resumir, bem resumidamente, eu fiquei cerca de duas semanas à espera de alguma palavra da famelga Oska, fui recebendo, bem quer dizer não fui eu, fora o recepcionista que atendera os telefonemas e depois me transmitira os recados, a maior parte destes eram a dizer para aproveitar a estadia no hotel, tal como os anteriores, anteriores, pelo menos, ao dia catorze de Fevereiro, dia dos namorados, a decoração já tinha sido retirada, tudo voltara ao normal, os namoros acabaram de estar tão presentes, os hospedes naquela semana eram mais de romances e turistas a Portugal do que propriamente pessoas interessadas no hotel, mas não deixaram de ser casal, um de cada vez, a entrar e a sair, durante uma semana. Agora o senhor que trabalha no bar tem muito tempo de folga, naquela semana às nove da matina já trabalhava enquanto agora ainda está a roncar para os porcos. O senhor recepcionista levantava-se à mesma hora mas ao sair para almoço era mais cedo, também não tinha que sair muito mais cedo, almoça no bar do hotel. Eu, bem falando depressa e mal, merda. Tive uma semana sem saber o que fazer, após a conversa em O Hotel, passeei tanto por Lisboa que, aquilo que achava ser a cidade mais bela de Portugal, história em cada esquina, apesar de problemas económicos que ainda se deparam hoje, quem diz hoje diz ontem e amanhã, eram os cantos mais asquerosos do país, tudo o que eu achava interessante é agora uma simples recordação de algo que era assente de um país que, apesar de uma crise tão grande, sempre conseguiu superar, aos poucos, com, aquilo que chamam, o “aperto do cinto”, falando eu em situação económica. Falando em outras situações, durante a mesma semana, vi dez casamentos, três baptizados e quarenta missas, obviamente que, eu sendo um senhor de fé, não meti os pés na igreja, sempre me fora ensinado que quem é religioso não é a ir à missa que aprende mais ou menos acerca de si próprio, é a rezar consigo, a pedir perdão a Ele, é a ser-se próprio e a conseguir ver o que todos não conseguem ver, mas dentro do seu próprio espaço. Uma pessoa consegue acreditar em si mesma quando acredita em Deus consigo próprio, sem ter que ir falar com outros para passar os seus próprios problemas. Aliás, o NADA é o Tudo que um ser inimaginável pensa, com os olhos, espelho da alma, o ser tenta chegar a humano, através do parto, para que tudo possa voltar a ser nada, enfim, apenas digo que preciso de descansar durante mais algum tempo até receber a tal famosa carta de Carllos Oska. Ah é verdade, já me ia esquecendo, a segunda semana de espera foi mais alegre, fui ao circo da cidade, quer dizer, fui ver o senhor primeiro-ministro a passear pela cidade com os seus elefantes, desculpem novamente, com os seus guarda-costas para ir tratar de assuntos do estado, também estive com vontade de ir à praia mas, apesar de estar calor, é Primavera, por isso não fui e decidi ir à piscina do hotel, espectáculo, O Hotel não tem piscina porque é um hotel de ricos e os ricos não tomam banho em público, daí as piscinas particulares, agora é que penso nisso, mas um hotel pobre mas que estou a adorar, esta sim é a minha casa, desde que cheguei a Portugal que me sinto realmente em casa, apesar de todas as cousas más que eu disse, mas isso é por estar sempre no mesmo local, tem piscina e estou a adorar estas semanas que aqui estou no país. Por outras palavras, apesar de não ser nada de grande, Portugal é Portugal e Casa é Portugal.
A terceira semana passou.
A quarta semana passara.
A quinta passará.
A sexta ficara, por outras palavras, o Verão chegou e nada de nada de pistas, estou a começar a ficar preocupado, será que aconteceu alguma cousa, pensei, mas depois logo encontrei a resposta à pergunta, nada acontecera pois eu continuava a receber o dinheiro, o extra é que era descontado sempre no fim de cada mês porque eu não o usava. Enfim.
Esperava eu pelo autocarro para conseguir ir comprar algo para enfeitar o meu quarto, apesar de estar num hotel e de ter lá os meus preparos, como já lá estou à tanto tempo, uma pessoa tem que começar a se socializar consigo própria, decorando o seu espaço faz parte de um preparo inicial para que consiga fazer algo de jeito consigo próprio, O senhor entra ou não, Entro sim senhor motorista, Vai para onde, Vou para a baixa, Muito bem, são dois euros e cinquenta e nove cêntimos, tão cara uma viagem de autocarro, em Londres era muito mais barato, É a crise, Desculpe, Nada, nada, eu é que peço desculpa, estava apenas a pensar e, por vontade própria, sim a fala por vezes também ganha consciência e vontade de sair, o pensamento proferiu-se a si mesmo da boca para fora.
Já estou de regresso para o hotel. Vejo muitas aves de diferentes tipos a pairar pelos ares empestados e magníficos de Lisboa, Pelo menos não chove tanto como em Londres, Nisso tem razão senhor estrangeiro, alguém me respondera, virei-me para ver, e qual não foi o meu espanto, era o senhor Jorge de Andrade, o senhor que trata de alguns dos negócios dos Oska aqui mesmo, em Portugal continental central, Lisboa, capital de Portugal e do mundo mesmo quando chamada de cidade invicta, mas nome enfim proferido com pouca convicção depois de tantos desastres e tantas crises económico-sociais, esta sim é a maior de todas, Como está senhor Andrade, Estou bem e o senhor londrino, Londrino que eu saiba sou, angustiado também estou, Então o que se passa, Sempre fui falar com o senhor Oska e ele disse para esperar mais instruções, de um modo elegantemente político, Eu sei que pode ser muito frustrante, Mas é que já se passaram, praticamente, dois meses, faz amanha, se não me engano nas contas, esse mesmo tempo que estou em Portugal, Lisboa, Já começa a fartar não é senhor, Não, agora está enganado, não começa nada a fartar, já farta à muito tempo, agora, ai agora, começa a enfatizar a simples fantasia que o mundo perfeito devia de ser como esta pequena cidade comparada com as pobres e podres ruas do mundo asqueroso em que se vive, o mundo estava perdido, É a crise, Déjà vu, se não me engano, De volta ao hotel, Sim, fui comprar algo para me entreter, nada do que possam pensar como anteriormente referi, algo apenas normal, uma lâmpada, um computador, um telemóvel e um livro de título interessante, mas que não poso revelar pois ainda posso estar a retirar direitos de autor, e o senhor, Eu estou a caminho de uma cidade ainda mais pequena que esta, Uau, espantei-me, deve ser mesmo pequena, eu já conheço Lisboa, pelo menos esta parte toda perto do hotel, e digo-lhe que o hotel em si é a melhor parte, de repente começara a resfriar, Que frio repentino, Tome o meu casaco senhor Andrade, Obrigado, que gentileza, agora não vai você permanecer regelado pois não, claro que não, o hotel também não é muito longe, mas regressando à conversa anterior, melhor, o tema anterior, para que cidade é que o senhor se dirige, Eu dirijo-me para uma cidade a norte de Lisboa, distrito Santarém, perto de Caldas e da Rainha, pois Caldas da Rainha, Muito bem, vejo que, para um inglês, já sabe muito acerca do país de origem portuguesa, Os Lusitanos afinal de contas têm todo o direito a serem conhecidos, Até parece que está a defender o seu povo, mas vossemecê é de origem londrina e não portuguesa, Talvez, eu concordo com a minha opinião, o ser é de origem que quiser ser e da origem que a sua alma o permitir ser, mas, não voltando a sair com devaneios nem nada do género, para que cidade vai o senhor Jorge de Andrade, senhor de negócios bem-feitos da família que me enviara a Portugal com um intuito de desvendar algo que mesmo eu não percebera muito bem, Eu vou para uma cidade que, outrora, mina teve funcionando, fama, essa sim, nunca a teve, mas cidade boa é, Rio Maior onde vou.
Rio Maior, que nome tão estranho para um cidade de porte tão pequeno neste país insignificante à vista dos homens e das mulheres do dia-a-dia, apenas, no quotidiano, aqueles que conseguem ser irracionais o suficiente conseguem comprovar que este país é o necessário para a sobrevivência do mundo, depois de tanto que passou, este sim, é o único país que pode ensinar algo aos outros, Maior de porte sempre foi Portugal, Rio banhado de Espanha teve este país, nascido cá, poucos mas bons, como muitos dizem cá, esta palavra nunca me soube tão bem ser pronunciada, cá, local onde estou, cidade repugnante de cheiro horrível e hálito óptimo para o Homem e o animal fica com o aproveitamento de todo um país que outrora vivera na grandiosidade. Que merda. A conversa com o senhor Jorge de Andrade foi muito curta, ele seguiu o seu caminho para Santarém, local onde iria dormitar para depois, no dia seguinte, seguir viagem para Rio Maior, é claro que conseguia chegar lá hoje ainda, segundo suas palavras, mas como tinha cousas para tratar em Santarém encurtou trabalhos, eu, pelos vistos, a pensar na miséria que o mundo sofre, a pensar no que o mundo é apenas porque o decidiu ser, vou a caminho do hotel. Pelo caminho vou, também, a pensar o que seria o ser perfeito para as pessoas. Bem com tudo isto acabei de formar, dentro da minha cabeça oca, uma teoriazita, que de certeza que estaria incorrecta, ou então, correctamente inacabada, como todos dizem que as teorias têm sempre um sentido falso da verdade. Esta teoria vou recitar a mim próprio.
“Às vezes é necessário pensar um pouco no inconsciente para conseguirmos ser conscientemente pessoas para percebermos os outros. Pessoas iguais a todas as outras mas todas diferentes opõem as suas vidas incomuns pela simples percepção do ser perfeito que a vida tenta conhecer, aliás, tenta criar. Um ser perfeito não é um ser que consegue fazer tudo e mais alguma coisa quando quer ou quando lhe pedem. Este ser é um deus porque não é omnisciente. Mas o que é no final um ser perfeito.
Um ser perfeito é um ser cujo nome não tem significado neste mundo mas que consegue entrar em todos os conscientes inconscientemente. Algo que não é normal certo, apesar de não ser normal é algo extremamente possível pois nós apenas temos uma visão muito estudiosa da realidade, tão estudiosa até que por vezes a verdade corresponde ao que nos parece simples demais para ser questionado, mas que na realidade é essa a realidade das palavras sem senso comum. A verdade é então tudo aquilo que uma pessoa aceita, ou não, dependendo dos seus juízos de valor, do seu consciente.
O ser perfeito consegue perceber tudo e todos, com ou sem estudos muito complicados. Assim um ser perfeito não é um ser que consegue fazer tudo para alegrar os outros como já eu tinha proferido anteriormente. Este ser é, afinal, algo que o nosso inconsciente cria conscientemente, ou que o nosso consciente cria inconscientemente, de modo a perceber a vida, por mais simples que possa ser.
Por fim apenas afirmo que não existe um ser perfeito na Terra, por muito que imaginado seja é impossível conceber um ser sem imperfeições. Naturalmente, imaginativamente, através de clonagens, é sempre impossível, este ser perfeito que corresponde ao nosso ser, este criado pela nossa mente quando se sente de uma maneira só mas ao mesmo tempo alegremente simples.
Amor é a vida simples, assim o ser perfeito é um ser criado com base na mente e na verdade, mas estes que são mudados sempre através do amor que corresponde a cada ser.
Mesmo nos países subdesenvolvidos existe amor, e assim sendo existe um ser imperfeitamente perfeito.
Um ser perfeito é um ser que tem consciência do que é mas também sabe o que os outros sabem dele mesmo que não seja muito importante saber isso. Os seres humanos podem imaginar o ser perfeito como um deus em forma de ser humano mas pode ser em forma de animal irracional assim como um cão, macaco gato ou até mesmo um ser aquático que nunca é perfeito no pensamento, o peixe.
Assim o ser perfeito é o ser que não tem posse de escolha entre os demais. Como é um ser imaginado tem obrigação de fazer tudo o que lhe pedem ou por outras palavras, tudo o que imaginam para ele. Apesar de estar presente em todo o lugar é um ser muito condicionado. O que interessa ser um ser perfeito se é um ser imaginado, se tem que fazer o que os outros ‘mandam imaginando’, questiono. Por outro lado o ser imperfeito não é um ser que faz o que lhe apetece. É um ser que tem regras, mas só as realiza se lhes estiver na sua mente demoníaca, ou seja, por muito que se seja obrigado a fazer algumas das coisas que lhe pedem.
Por outras palavras um ser imperfeito é um ser perfeitamente desordenado.”
Grande teoria que inventara em tão pouco tempo, bem pouco não fora bem assim pois, após ter andado algum espaço, deparo-me já em frente ao hotel e a minha casa durante quase dois meses, até eu, o recepcionista e o senhor que trabalha no balcão já somos amigos, ‘migos do povo, apesar de não sabermos o nome uns dos outros, mas como eu digo e reafirmo, não se precisa de saber a verdade para a mentira estragar a consequente afinidade afirmativa da vida, ou seja, por outras palavras, o nome é apenas para sabermos o que chamar à pessoa ou animal, por vezes racional, que o Homem é, o que importa não é o nome ou o exterior, que parte deste o primeiro faz, é o conteúdo, o que se encontra dentro da embalagem. Mas voltando a palavras normais e corrente, cheguei ao hotel com uma teoria, que mais tarde escrevi a computador, que me fez mudar, apenas um pouco, o meu modo de pensar acerca de todos os seres existentes no mundo, deixei de ser apenas aquele que acredita que o Homem é o Homem, não, o Animal é o Homem. Hotel doce casa, Boa tarde, Boa tarde senhor recepcionista, recebi algum telefonema, Não senhor, mas recebeu uma carta que fui eu mesmo colocar para dentro da porta de seu quarto, Número vinte e cinco não foi, Ai agora é que está a bonita, acho que me enganei e coloquei no quarto número trinta, não tem nada a ver vinte e cinco com trinta, pensei, mas, Errar é humano, digo, Obrigado por compreender, parece que o recepcionista tivera uma vida dificil, este é nova mas sofredora, viste e poucos anos, não lhe dou mais de vinte e oito anos, nem menos de vinte e três anos, Obrigado, Mas não quer que eu vá buscar a carta, Não se preocupe com isso, eu mesmo vou lá, disse trinta não disse, Disse sim, obrigado, aqui tem a chave, a ver se não me engano desta vez, vinte e cinco, Obrigado, Mais uma vez peço desculpa, Já disse que não faz mal. Toquei num botãozinho, ele desceu, eu penetrei-o e ele subiu e gemeu todo contente da vida, mas, fora das vossa mentes perversas, apenas entrei dentro do elevador que me levara ao andar onde tenho que estar, o terceiro, dos poucos que tem este belíssimo e simpatiquíssimo hotel, a contar desde o rés-do-chão. Boa tarde afirmou o vaso, como se ele fala-se, mas já estava eu ali à tanto tempo, sempre a ver o mesmo deslumbrante vaso, por cada vez que lá passo percebo melhor o seu significado, mas não alargando muito, pelo menos não por agora, como maluco não sou e irracional o suficiente, Boa tarde, respondi eu ao vaso e segui em direcção ao quarto pretendido. Passei pelo número vinte e cinco, este pendurado na porta de meu quarto e minha casa tão esperada, deixara as compras à porta de entrada do quarto, poucas são as pessoas que estão naquele andar e, não fazia eu intenção, não demorar muito tempo a recuperar a carta, podia ser algo oskiano afinal de contas, algo importante que mais ninguém podia saber, afinal de contas eu sou importante, pensei com muita ironia.
Passei por todos os quartos com o número entre vinte e cinco e trinta, assim como o vinte e seis, o qual eu ouvi uns estranhos gemidos, parecia uma metralhadora na época de guerra, parecia uma albegoaria no meio de uma guerra, na guerra da padeira de Aljubarrota, parecia um peixe no meio dos corais a pescar tubarões no meio do aquário gigantesco que o oceano é, o quarto vinte e sete, silencioso como sempre, vinte e oito, nada pairava naqueles estrumes do inferno, parecia que ninguém lá ia a muito tempo pois, bera como o céu do gigante infernal herculeano, cheirava mal como porcos no espeto, mas não se notava muito pois, apesar de eu estar apenas de passagem, tinha as janelas abertas e, assim, conseguia-se observar o belo rio que estava na sua paisagem, segundo as pessoas que ali vão hospedar dizem, rio pequeno isso sim pois não se avistava muito longe do hotel, pelo menos não muito longe do que dois quilómetros de distância, o vinte e nove, mais movimento brusca se passava, ouvia dizer, ouvia-se e bem cá fora, também hotel tão pequeno como aquele dava para esconder qualquer segredo, Dá-lhe com força, vai com força amor, vai Gustavo, Sim, estou a ouvir, estou a dar o máximo que consigo amor, Carlos eu estou a dar, oh meu Deus, dois homens, muitos iriam pensar, eu não penso nem deixo de pensar, a única cousa que afirmo é que cada pessoa tem a oportunidade de ser o que quiser e de fazer o que quiser e ninguém tem o direito de os julgar, assim penso, posso estar errado pois, apesar de fé ter, não tenho religião definida e, assim, não tenho preconceitos contra ninguém e tenho discriminação contra todos, e cheguei finalmente ao quarto com o número trinta na porta do quarto, o último daquele andar, Não, não vou continuar com esta mentira, nós não somos casados e não vou continuar a enganar a tua família ouviste, Ouvi caralho, mas acho que mereço outra oportunidade, Outra, acho que estás muito enganado, quer dizer, estamos ‘casados’ à já um ano e tu já me traíste mais de trezentos e sessenta e seis vezes por ano, mais do que um ano pode ter, eu tinha muita pena de interromper a discussão mas, apesar de não gostar de me meter na vida das outras pessoas, precisava de falar com estes senhores para recuperar o telegrama que viera parar no quarto errado, graças ao engano do senhor recepcionista, desculpo-o pois todos somos humanos, inumanos é certo, muitas das vezes somos, quase sempre, mas todos errados, racionais ou irracionais, humanos ou inumanos, apenas somos aquilo que mais dúvidas tem à face da terra, nós somos simples seres estúpidos com medo de dizer que a verdade à nossa volta é a pura mentira da nossa consciência, pura inconsciência, verdade seja dita.
Ganhei um pouco de coragem para conseguir estabelecer contacto com a porta e comigo mesmo, parece uma fase de ênfase e de êxtase total o momento em que uma pessoa espera ansiosamente que alguém vá abrir a porta, bati, Boa tarde, quem é, pergunta uma voz adocicadamente simples, Sou o senhor do quarto número vinte e cinco, por aquilo que o senhor recepcionista me dissera, engano de uma pessoa, engano de mil, como sempre digo para parecer uma pessoa, simples e pura, menos culpada, que entregara uma carta no quarto errado, em vez de ser no vinte e cinco entregara no quarto número trinta que, se não me engano, raras as vezes que isso acontece com números tão simples como um andar que tem quartos desde o décimo primeiro até ao trigésimo, último de seu andar, vista magnifica, vista de um vaso que conta uma história glorificante que, a cada dia que passa, percebo mais um pouco da sua intimidade geral, Ah o senhor é o senhor, agora interrompo a minha escritura apenas para que não se saiba o meu nome, ainda é demasiado cedo para se saber o nome de uma simples figurina como eu, sempre esperei ansiosamente por descobrir meus pais mas assim que o fiz o meu nome passou a não ter importância alguma para a concretização desta pré-escrita leitura, Sim sou eu, o senhor do quarto número vinte e cinco, prazer, Prazer, o meu nome é Cristina, Que nome tão belo, Aconselho-o, por favor, diz ela muito baixo, com medo que alguém ouvisse, que diga essas coisas em voz baixa, pelo menos perto deste quarto que, por si só, tem companhias arrojadas, ao mesmo tempo que ela diz isto, sai uma mulher todas bem vestida, prostituta, com olhos de ver se conclui, do quarto, ao mesmo tempo, apenas a repetir para enfatizar a ideia de espaço-tempo constantemente remotos, Vou embora de vez, estou farto, segundo as tuas palavras, de te “trair” tantas vezes, e ao mesmo tempo que diz trair faz mesmo, com os dedos, as formas das aspas, para que se percebe-se, pelo menos ela, que não era brincadeira nenhuma o que se passava, Peço desculpa por isto tudo, é que este senhor, que se intitulava de meu marido não o era, apenas estava a enganar a sua família e a si próprio ao pensar que, ao fim de um ano, podia ficar comigo, Eu não tenho nada a ver com isso senhora, mas obrigado por me contar, Oh é verdade, não tenho que o maçar com os meus problemas senhor do quarto vinte e cinco, Mas pode-me contar tudo num café, após me dar a carta e a ir arrumar no meu quarto por favor, Aceito e, ela entrou e esperei poucos segundos, aqui tem a carta, espero por si lá em baixo, Muito bem. Fui ao quarto e deixei a carta, por muita curiosidade que o meu simples e insignificante ser tinha, não a abri logo, estava, agora, mais interessado em ir tomar café com a senhora cujo nome ainda não sei bem, sei que começa com C e acaba em na, como em Caneca, ou Chávena, de café, até calhou bem. Desci e fomos tomar café, apenas falamos das nossas vidas, eu expliquei a minha e ela a sua, não interessa mais pormenores e, assim, não os vou expressar. Fui para o quarto, já noite e fui dormir. Boa noite.
De manhã fiz tudo o que é normal uma pessoa fazer, levantei-me, vesti-me, fui-me lavar a focinheira, lavei os dentes, eu ainda n tinha comido e eu sabia que ia comer dali a cinco minutos e que os ia voltar a sujar, mas fica sempre bem lavar os dentes para tirar aquela nhânha com que se acorda nos dentes e o mau hálito bocal. Desci, comi um biju, papo-seco como dizem aqui no centro, como dizem no norte, como descobri mais tarde ligações importantes, com fiambre e queijo e, para acompanhar, bebi meia de leite. Depois subi e, apenas depois de ter entrado, é que reparo que, por cima da televisão, está uma carta ainda não aberta com o meu nome, é a tal carta, a tal, tal e qual como me fora entregue, como me disseram que ia receber, a tal. Abri a carta e li “Boa tarde, sabemos que é muito cedo informar mas, o grupo Oska, desde já envia os seus melhores cumprimentos, vem, por este meio, informar que, sabendo que o senhor fora educado em um local público e que a directora desse estabelecimento era a madre Caroline, esta directora, excelente senhora como todos dizem, acabou por falecer ontem às dez da manhã. Com este intuito vimos, também, dar-lhe uma oportunidade de viajar novamente até Londres para o funeral da própria, este que será após amanhã e que tem um bilhete reservado em nome de Carllos Oska no aeroporto para amanhã, também, às dez da manhã.”, pela qual fiquei em estado de choque, hipoteticamente falando. A carta era para ter sido recebida ontem e, então, queria dizer que o avião era hoje e o funeral amanhã. Olhei para o relógio e já marcava as nove e trinta da matina. Despachei-me e saí, disse apenas ao recepcionista que eu ia sair e que voltaria após uns dias, mas que não desfizesse o quarto número vinte e cinco e que guardasse todas as cartas que recebesse para aquele mesmo quarto. Apanhei um táxi e dei-lhe o dinheiro que tinha na carteira, cento e cinquenta euros e pedi para ir o mais depressa possível para o aeroporto porque era uma urgência. Ele foi tão depressa que chegamos quando faltavam dez minutos. A minha sorte, lá dentro, fora que estava pouca gente na fila e arranjei tudo, até o bilhete, apenas entrei no avião a tempo de ele levantar voo em direcção a Londres, para a Instituição de Crianças para Adopção Londrina, ICAL, abreviando. Bom Dia.
Eu, após chegar a Londres, compreendi que, quando chegara a Lisboa e que falaram comigo pela primeira vez em português, eu não tivera nenhum tipo de dificuldade em responder na mesma moeda, como costumo dizer, e pergunto-me o porquê, talvez seja por causa do português dado na instituição como falara à pouco, mas não me acredito muito pois uma pessoa aprende falando, e professor português, se não me engano, zero era o número perfeito para aquela simples redondeza de estrangeiros de tão grande história simplórico-temporal, por outras palavras, eu sou um espectáculo, na brincadeira claro, apenas intrigo o porquê se nunca tinha falado português anteriormente. Agora que, vou a pé, vejo um mendigo a pedir na rua, perto do aeroporto, e dois negros, chineses, e de outras raças sempre a serem discriminadas, mas porquê, algo que nunca me questionara antes e que, por aquilo que eu sempre reparei, mas se nota em Londres, a discriminação acontece muito em Portugal, ainda mais com aquela crise tão grave que passa no momento, pergunto-me se alguma vez passará. Tenho saudades da minha terra natal, apesar de não a conhecer, todos me dizem que nasci em Londres, mas por mais anos que eu viva, tenho cada vez uma maior impressão que eu sou originário de outro local, ah é verdade, tinha-me esquecido, foi preciso eu chegar a Londres para voltar a encontrar chuva sempre a me seguir, mais um sinal que aquela não era a minha terra. Talvez. Talvez. Talvez. Apenas a enfatizar a ideia, nada de mais. Apanhei o comboio que mais tarde me levara a um autocarro com uma paragem, duas, três, muitas paragens, segundo contei, para chegar perto da minha, se é que posso dizer que ela é minha, instituição, mas depois de o transporte público parar ainda se tem que andar cerca de dois quilómetros a pé, muito bom para quem precisa de andar, o que não era o meu caso. Pelo caminho toca-me o telemóvel, Boa tarde, eu chegara a tarde, como partira de manha, Boa tarde, quem fala, É a senhorita Cristina, Olá senhorita, senhorita, para quem não sabe, talvez vocês, é como eu lhe chamo, mal eu sabia que, Gostaria de saber se o senhor iria, por simples frase imperial, querer tomar um café comigo hoje à noite, Iria adorar, mas, infelizmente, tenho que regressar a Londres, voltarei para a semana, depois conto tudo ao pormenor, Muito bem, o senhor recepcionista contou-me que sais-te a correr e eu apenas gostaria de saber para onde, Foi um imprevisto, para falar a verdade, um imprevisto mesmo, então é assim, e contei-lhe tudo o que a carta transcrevia, Credo, então fica aí uma semana e depois volta quando quiseres, Obrigado, Obrigado não, tens todo o direito de ir para onde quiseres, lá estou eu a tentar controlar a vida das pessoas, Não estás nada, apenas te estás a preocupar, Achas mesmo, Acho sim, vou ter que desligar porque estou a chegar, Adeus, espero pelo café, Também. Desliguei e, após deixar de ouvir aquela doce voz, mais grave no telefonema é certo, apenas conseguia ouvir choros. Esta iria ser a parte mais difícil para mim em toda a minha vida, ter que passar por todos os locais da minha infância, ver tudo o que acontecera, todas as memórias, tudo, talvez desta vez não se aplica aqui, era de certeza, e mais complicado ainda é transcrever para aqui para vós. Entrei, mas explicarei mais tarde, Boa tarde. Anoiteceu.
Atravessar o simples jardim pantanoso, sim pantanoso pois tinha acabado de chover e toda a terra se tinha enlameado, era apenas de mais para mim, ter que passar por todas aquelas memórias novamente, tudo de novo a querer passar por mim sem que eu desse conta e, como sempre, sem poder ajudar ninguém, infelizmente. Lembro-me de tudo como se fosse o primeiro dia em que tudo acontecera. A verdade está penetrada na mentira, avanço desde já esta palavra para que possa proferir todos os significados a minhas memórias pois, apesar de estar a falar da minha vida, estou, pura e simplesmente, a transmitir tudo o que me aconteceu para que vossemecê e a senhorita soubessem tudo o que pertenceu à senhorita, sua conhecida e familiar, Lady Oska. Entrei dentro de casa, pois casa, mas não a casa do costume, a mesma casa que eu sentia que era a casa de casa, agora, a casa está simplesmente em Lisboa, essa sim é casa casa, esta agora apenas é a casa passada. O futuro é construído pelas mentiras e o passado é constituído por todas as verdades. Se alguém conta uma mentira vai modificar o seu destino e, assim, vai, também, modificar a sua origem e o seu caminho mas, após alguns dias passarem, a tal mentira é agora a verdade pois está no passado. Como simplesmente eu poderia dizer, por outras palavras e mais simples, o orfanato é, agora, toda a verdade para mim, acabou-se o futuro neste local.
Estava tudo igual. O chão estava molhado e sujo de muitos sapatos. Olhei para cima e, o tecto, continuava sem estar pintado, com bocados de tinta a caírem. Olhei para o meu lado direito e reparei que alguns papéis foram remexidos mas, apesar disso, a recepção do orfanato mantêm-se a mesma de sempre. Escusado é transmitir conhecimento para o lado esquerdo, pelo menos para já, mas, se eu soubesse na altura, tinha logo me dirigido para aquele local onde teria logo concluído grandes feitos na minha conquista, esta tanto psicológica como Oskiana. Toquei na sineta que se encontra na recepção para chamar alguém. As luzes estavam todas apagadas, o normal para quando falece alguém, sim falece, pois morte é uma palavra um pouco ou tanto estranha neste momento. Ninguém se aprochegou. Visto tudo aquilo não tinha outro remédio que entrar, como eu conhecia o orfanato de uma ponta à outra, e me dirigir por este estabelecimento para ver se encontro alguém. Começara a trovejar e a chover bastante. Os relâmpagos eram tão forte que apenas um estremecer de um deste deu origem a vários apagões gerais em toda Londres, segundo tinha lido algures nos papéis da recepção ao entrar, existira outra trovoada como esta do presente na noite passada. Cheguei ao meu antigo quarto e reparei que nada estava mudado, um beliche com duas camas, onde eu dormia na de cima para conseguir ver bem as vistas apesar de estar sempre a chover. Deixei a minha mala com a roupa por cima da cama de baixo e fui procurar alguém. Encontro uma freira a passar por mim simplesmente com a cabeça para baixo, eu reparei mesmo que ela não me vira por isso não fui agressivo, apesar de tudo é uma senhora de Deus, uma irmã, Olá irmã, Olá, o senhor é, perguntou, Não se lembra de mim irmã Theresa, Como me conhece, Eu sou aquele rapaz que foi embora aos dezoito anos, Muitos foram com essa idade, mas agradeço por proferir que aqui morou meu filho, Eu dormia ali naquele quarto, e apontei, no beliche de cima, És tu, és tu, és tu, repetira três vezes como sempre fazia quando falava comigo, desde que lembro que era assim, não sei bem o porquê, talvez fosse supersticiosa, Eu vim porque soube da morte da Madre, O funeral está prestas a começar, o funeral está prestes a começar, o funeral está prestes a começar, Pode-me dizer onde é irmã, Segue-me, segue-me, segue-me. E segui. Fomos parar a uma igreja que tinha sido construída à pouco tempo, ainda dentro do orfanato, eu não me lembrava daquele local antes da igreja. Mais pormenores não revelo porque o resto do dia fora demasiado doloroso para mim. No final, as irmãs deixaram e eu aproveitei e, assim, sempre poupei algum dinheiro, fui dormir para o meu beliche, na cama de cima, como antigamente. Dormi muito bem a recordar como era toda a minha vida passada, a verdade por si só, e a recordar todos os males que me aconteceram aqui. Durante o sonho recordei tudo o que me aconteceu aqui, os momentos bons, os momentos maus e até os momentos, apenas assim. Era uma vez.
Vou, agora, passar a transcrever tudo o que me lembro que acontecera neste estabelecimento. Eu tinha cerca de quatro anos quando isto aconteceu. Estava eu no meu quarto e fui chamado ao gabinete da directora. Quando lá cheguei deparei-me com um rapaz sentado numa cadeira, muito envergonhado, de cabeça baixa e com uma mochila vermelha no chão recostada à tal cadeira, Sente-se menino, eu mandei-o chamar, diz a directora, falecida no presente, infelizmente, para lhe transmitir uma informação importantíssima, Diga senhora directora, Este menino chama-se, diz lá o teu nome menino, O meu nome é Este, como eu tinha dito anteriormente eu gosto de fazer modificações nas palavras e pensar em coisas com números, modifiquei a palavra Este e verifiquei que era um anagrama, para quem não sabe um anagrama é uma palavra criada pela primeira, mesmas letras, mas ordem diferente, do número sete, O menino Este vem viver connosco durante uns tempos, a directora dizia sempre o mesmo a toda a gente, que iria ficar pouco tempo, pouco tempo uma ova eu já lá estava à quatro anos, segundo me diziam e me lembrava, mas na verdade a vida deste moçoilo ali durou pouco tempo, verdade seja proferida e a não verdade omitida, por enquanto, E chamou-me para dizer isto porquê senhora directora, perguntei, Porque Este menino é o seu novo colega de quarto. A conversa acabou e eu levei Este para o quarto. Que nome tão estranho, Este, parece algo de outro mundo, este, aquele, aqueloutro, mas não, era sete modificado, Este, terá algum significado, que cousa de outro mundo, sempre pensei até chegar aos dias de hoje. Toda a vida no orfanato era normal, comíamos, dormíamos, brincávamos, no dia seguinte a mesma rotina, comíamos, dormíamos, brincávamos, e assim sucessivamente, todos os dias, durante dois anos. Era verão e eu e o meu colega de quarto que, naqueles intensos dois anos de brincadeira, se tornara meu melhor amigo, pergunto-me se ele não terá sido o meu único amigo em toda a minha vida. Regressei ao nosso quarto às horas normais, cinco da tarde, para depois irmos lanchar. Como era costume nenhum de nós apareceu e, no dia seguinte, a história voltou a repetir-se, tudo isto porque, naqueles magníficos dois anos de vivencia, eu e Este tínhamos criado um esconderijo secreto, apenas nosso, naquele velho e sujo orfanato e era para onde íamos todos os dias às cinco da tarde, saindo apenas às sete da mesma tarde, hora de ir-nos lavar para o jantar comer. Um dia, nesse mesmo ano, fiquei à espera eternamente, às cinco da tarde e adiante, por Este. Ele nunca se tinha atrasado e reparei que alguma cousa não estava certa. À mesma hora de sempre, às sete da tarde, saí do tal esconderijo, local que ainda hoje não pronuncio com medo de que o vão tapar ou esconder pois, apesar de ter muitas más recordações de tudo isto, aquele local foi, na minha infância, o local mais feliz da minha vida, e fui-me lavar para a banheira, é claro que eu com apenas seis anos, apesar de já me saber lavar sozinho, não tinha ainda a ideia de fazer aquilo que faço hoje no quotidiano no banho, às vezes apenas. Após o jantar, muito após, então já tínhamos ceado e tudo, estava eu já com o pijama vestido e a irmã mais nova do convento, a que nos vinha verificar para dormir, é que o orfanato ficava ao lado de um convento e, assim sendo, de uma igreja velha que hoje em dia já ninguém lá vai, sem ser as irmãs que ainda trabalham no orfanato, segundo pude ver estes pequenos dias que estive em Londres, antes de regressar, mais uma vez a Portugal, e digo mais uma vez com intenção, apenas lá tinha estado uma vez e essa vez não tinha sido suficientemente para dizer que voltar seria outra vez, claro que não, esta foi apenas uma pausa no refresco de Lisboa com algumas recordações, menos boas é certo, más mesmo, de Londres, veio perguntar se estava tudo bem comigo e perguntou, também, por Este, eu disse que não sabia, que ele tinha ido à casa-de-banho enquanto brincávamos e que depois íamos para o sítio secreto, a irmã mais nova era de confiança, nós sabíamos que não contava a ninguém, e então ela desejou-me boa noite e foi embora. Enquanto estava a adormecer comecei a ouvir, da janela fora, uns gritos estranhos, parecia a voz de Este a gritar pela janela, eu ouvi, também, algumas gargalhadas, muito fininhas e, pior ainda, ouvia um som pontiagudo a perfurar algo e a cortar também outro algo, mas sempre pensei que era produto da minha imaginação. Boa noite. De manhã, após, obviamente, acordar e me espreguiçar, lavar a cara e lavar os dentes, despir o pijama e vestir a roupa do orfanato, sair do quarto e ir à cozinha, voltar para trás para descalçar os sapatos e calçar as meias esquecidas primeiramente, ir para o auditório rezar uma Avé e um Pai, fui brincar. Reparei que todos estavam iguais, felizes e contentes, todos aos pulos no baloiço, todos a descer pelo escorrega, todos a fazer castelos de areia, todos, todos, todos, todos menos um. Quando eu acordei não estava lá Este, não estava em lado nenhum, a tomar o pequeno-almoço não o tinha visto, a se vestir muito menos, no jardim a colher flores, ou a estragar umas tantas, uns dos muitos segredos que só nós sabíamos, nem no parque de brincar. Tudo isto fora nas férias do verão. Este desapareceu do orfanato no princípio do mês de Julho e, infelizmente, ou felizmente, oh que merda agora me lembrar de cousas destas, apenas no final do mesmo mês se soube de alguma cousa sobre Este. A directora, a madre que, no presente, voltando a falar no tempo normal em que se vive, disse, antes de dar as informações, ela ia-me dar algumas informações porque eu sempre estava com Este e porque éramos colegas de quarto e bons amigos, que o verdadeiro nome do rapaz desaparecido era desconhecido, daí um nome inventado à pressa, Este, O rapaz não tinha memórias do passado e não conseguia dizer bem o que lhe tinha acontecido, tinha dito na altura a directora, por isso não se sabe ao certo o que lhe acontecera, apenas se sabe que apareceu aqui no orfanato com aquela roupa que tinha no corpo, com quatro anos e sem memórias. Esperava um resposta alegre em que se soubesse tudo e que, também se soubesse, Este tinha aparecido são e salvo, tal não acontecera, alguém, ou alguma cousa, não sei o que transcrever neste momento melancólico, infelizmente por três vezes que já se repete, fez o que eu podia menos esperar, Ouve-me criança, disse a madre, eu sei que é muito difícil para ti ouvir algo como isto pois, apesar de todos os problemas do orfanato e entre ti e Este, ele era o teu melhor amigo, Era, pergunto eu com a voz muito adocicada, lá está, voz de criança pequena e enfadonha, Ontem à noite a irmã Luciania estava a fazer as patrulhas nocturnas com o guarda Esteves quando, por acaso, ouvem alguém a mordiscar algo, seguem o barulho e, de dentro de um buraco bem fundo, saem dois gatos e um cachorro, pequenos é certo, mas com a esfíngica fome por saciar, apenas saíram com sangue a escorrerem-lhes pelos cantos da boca e pelos cantos dos ânus, talvez se tivessem violado a eles próprios, penso eu agora que estou no presente, agora de manhã, quando se consegue ver melhor, o próprio guarda Esteves mais dois outros guardas retiraram algo que estava no interior desse tal buraco, afinal de contas era Este, estava empestado de caganitas de rato, cão, gato, enfim, mijadêra por tudo o que era ser vivo de apenas seis anos, palavras impróprias para um freira, mas as mais apropriadas na altura para explicar tremenda situação a uma criança como eu. Na altura ficara chocado com tais palavrões ditos pela madre, não disse nada e saí, quando finalmente chego ao meu quarto vejo um chapéu que o meu querido amigo sempre usava, um chapéu que ele trouxe quando chegou, pela primeira vez, ao orfanato, uma cartola pequena com uma dobra por cima, agarrei-me ao tal dito acessório, sem saber ainda o porquê e desatei a chorar, eram poucas da tarde. Só saí do quarto para lavar os dentes e ir dormir, pregar olho, mentira, passar a noite na choradeira, verdade. Algo que fora traumatizante para mim na altura fora, apenas alguns dias depois, a campa de meu amigo e super amigo espetada no chão como uma tribuna com lábios saciados com o sangue da sepultura. Apenas tive algumas semanas de luto porque, afinal de contas, era uma criança e, mais importante ainda, não era eu que punha a roupa a jeito mas sim as freiras. Uma história está contada, infelizmente retomada, a seguinte é de foro egoísta.
Talvez não seja o melhor por agora recordar tanto de meu passado. Não sei porquê mas sinto-me no dever de o fazer para que, tal como vossas excelências o desejam, saibam tudo o que aconteceu à senhora. Tenho, também, que recordar mais uma história dolorosa, a segunda, que me acontecera no orfanato, nem acredito que vou contar isto a alguém, nunca contei a ninguém, nem mesmo às freiras do convento. Talvez tivesse sido a causa de perder o meu melhor amigo aos seis anos que eu, apesar de querer muito, não ter feito muitos amigos, fiz muitos conhecidos isso é certo, não haja duvida, mas amigos em que se possa confiar mesmo, acho que poucos ou nenhuns.
Estava eu a regressar da escola, eu entrara para a escola, como quem diz, aos seis anos de idade, pouco depois de ter sabido o que acontecera ao meu amigo Este, nome inventado pelo que, também infelizmente, não sei o seu nome verdadeiro para que possa, tal como as pessoas normais, esperar por uma promessa quando menos se espera algo de alguém como ele no dia antes de meus anos, segundo os papéis que estão, ou estavam, agora não me recordo bem, no orfanato. Foi naquele dia a seguir que eu fiz anos, naquele dia em que desejei que o meu amigo estivesse comigo pelo menos mais uma vez, já está, talvez, gosto tanto desta palavra, a começar o egoísmo. Quando já estava a meio do caminho para o orfanato, eu ia e vinha todos os dias a pé da escola para o orfanato, é claro que existiam autocarros mas as outras crianças ocupavam os lugares todos e, os que sobravam, os vazios, onde eu me podia sentar, ficavam ocupados com as suas mochilas, então, triste e abandonado, no gozo, eu até gostava de ir a pé, tinha que me deslocar cerca de vinte quilómetros desde o estabelecimento de ensino ao dormitório e refeitório, naquela altura. Durante um regresso para o orfanato encontrei um senhor, Olá meu menino, estás bom, me perguntou, não respondi, não respondes porquê rapaz, eu não mordo podes acreditar, o senhor, segundo aquilo que me lembro, dolorosamente é certo, tinha uma casaquita castanha com calças de tecido próprio para a época e camisinha a conduzir, quer dizer, condizer, Estou sim senhor, e o senhor como tem passado, Bem obrigado, muito bem educado sim senhor, para onde vais, Não lhe interessa, Interessa sim, Porquê, Nada, nada, Não posso, apesar de não existir praia nem piscina aqui perto, não sei nadar, Eu estava a brincar contigo, reinar para ser mais correcto, Mas o que é que o senhor quer de mim, é que eu ainda tenho que chegar ao orfanato bem depressa, perguntei e afirmei convictamente, não muito para uma criança de quase sete anos e de luto psicológico, psicóloga pela morte de meu amigo nenhuma, nem nenhum, Eu apenas queria saber se estavas interessado em ganhar um bolsa de estudo para longe daqui, para outro local onde nunca estiveste, Não obrigado, se ganhar alguma coisa será pelo meu mérito, ele fez uma cara de espanto mas, logo a seguir, a tapou com cara de suposta educação, Então deixa-me, pelo menos, já que não queres partir, pagar-te uma água ou assim ali no café, Não obrigadinho, respondia assim porque sempre me tinham ensinado a não falar com estranhos, mas este era persistente, Porque não, Porque não tenho sede, Então e que tal para comer ou assim, Não já lhe disse. E segui o meu caminho, mal eu sabia que ele me tinha seguido. Depois de lavar os dentes, quando me ia para deitar, ouve-se a campainha da recepção a tocar e, pouco tempo depois, uma outra freira chega ao meu quarto para me chamar à suposta recepção, à tal. Quando lá cheguei, qual não era o meu espanto, deparo-me com o mesmo carrasco que me falara na bolsa de estudo, Este senhor está aqui porque diz que encontrou a tua carteira de com o passe de autocarro, disse a freira, Pode ir irmã, nós já falámos à pouco e podemos continuar a conversar agora, disse o homem, ruim como as cobras, logo vi, Apesar de achar uma ideia pouco interessante, já passa da hora de deitar, digo eu, Então o melhor é mesmo ficar para amanhã, diz o homem, Sim, amanhã pode ser, afirma com convicção, até parece que eu queria um encontro ou algo do género, a irmã. De manhã bem cedo, no meu dia de anos, apesar de ninguém me deixar sentar no autocarro, todos me desejaram os parabéns, incluindo as pessoas que não vão no autocarro, as freiras, os guardas, o padre, a madre, enfim, todos do orfanato. Ouve-se novamente aquela maldita campainha da recepção, eu, quando a escutara, arrepiara-me todo dos pés à cabeça. Está aqui o senhor de ontem à noite, disse novamente a freira. Eu fui, praticamente, obrigado e ir pois, após dizer que não queria ir, umas duas ou três vezes, o senhor entrou pelo orfanato dentro e abriu as portas do refeitório, onde nós estávamos, Bom dia pessoal, Bom dia, todos respondem com ânimo, todos menos eu que, para não parecer mal ao responder com uma voz malcriada, nem sequer abri a boca, Sabe uma coisa senhor, começa a freira a dizer ao senhor, hoje é o aniversário do pequenote cuja carteira fora encontrada por si ontem à noite, A sério, pergunta espantado, e alegre ao mesmo tempo bem sei, então que tal a nossa conversa, que fora adiada, de ontem passar a um passeio por Londres para comemorar o teu aniversário, não te preocupes que pago tudo. Tive que ir, as freiras disseram para aproveitar e, apesar de não gostar muito, pouco ou nada, do senhor, achei a ideia engraçosa. Primeiro fomos ao London Eye, depois andámos por Londres, fomos ver o rio, dar comer aos pombos, aos patos, por aí adiante, tinha sido o meu melhor aniversário se não fosse, ah que até me custa sequer me tentar lembrar, se não fosse o que acontecera. Estávamos de regresso ao orfanato. Pelo caminho o senhor decidiu fazer uma paragem porque estava aflito para mandar uma mija, como ele tinha dito, e foi então que fomos por adiante de uma floresta para que, pobre senhor, aflito dos intestinos, pode-se obrar em paz. Ai Jesus. Ele baixou as calças, nem tinha vergonha de eu estar a olhar, olhei para aquilo, tudo peludo, com pêlos brancos e negro, tudo com uma nojice sem igual, tirou o casacão, a camisa, atirou tudo o que tinha vestido para o chão ficando apenas com o que tinha no corpo quando nascera. Aproximou-se de mim, Não queres fazer as necessidades também, Por acaso não, obrigado, Ai isso é que queres. Ponto final parágrafo. Foi aqui que começou tudo, ele, segundo me lembro, já tinha, quando despira as calças, o tal dito pau em pé, como uma base de uma tenda, ele despiu-me, tirou-me as calças para que eu pudesse fazer as necessidades, tirou-me a camisa para que eu pudesse ficar em paz e sentir o vento a soprar nos, supostamente, cresceram mais tarde é certo, pêlos que tinha no peito, ele começou por mijar para cima de mim, achei nojento depois agarrou-me a cara e colocou aquela cousa de onde tinha saído o mijo dentro de minha boca, apenas me apetecia tirar mas, como disse à pouco, eu era uma criança e não sabia o que era aquilo que ele estava a fazer, ele começou a se mexer para a frente e para traz, deixando sempre o seu presunto dentro de minha boca, como se tivesse a satisfazer os seus pedidos, depois de muito se esfregar, baixou-se ele e começou a lamber a minha pilinha, sim pilinha, eu ainda era uma criança e, assim, aquilo era muito pequenino, como se eu também estivesse a gostar daquilo, ele esfregou com as suas mão suadas no meu couso, após se sair decidiu ir com a língua nas minha pequeninas bolinhas, virou e fez com que eu lhe mexesse no rabo, depois disso ele foi para traz de mim e, naquela cousinha tão pequenina, enfiou aquele seu chouriço, que nojice, no meu cu, e fez o mesmo que tinha feito quando o tinha na minha boca, mexeu-se para a frente e para traz. Chega, não consigo contar mais, é demasiado para o meu foro psicológico. Paro por aqui e não quero contar mais, apenas digo que depois ele se vestiu e foi embora, nunca mais o vi, até aquele dia que já passo a contar, e eu fiquei ali, depois daquele abuso tão grande, aquilo que transcrevi foram apenas cinco minutos de meia hora que aquilo durou. O pior de tudo é que o bosque onde tinha acontecido era o que estava desenhado no orfanato. Que grande prenda de anos.
Agora regressando ao presente. Já de saída para Portugal, depois de me recordar daquilo tudo, depois de me despedir de toda a gente, depois de deixar saudades e lágrimas para traz por uma bela e simples alma, não é verdade madre, pergunta retórica simplesmente, vejo na recepção, novamente, todos aqueles jornais e cartas antigos, parecia que a recepção não era remexida à bastante tempo. Quando volto a cabeça e olho para a outra parede, para a do lado esquerda à entrada e vejo no espelho, ah pois é tinha um espelho, que merda de memória, já não me recordava, e vi que estava uma fotografia de alguém espetada na parede do lado direito, o da recepção, mas escondido por mais papéis em cima, apenas eu tinhas visto um braço. Virei-me, entrei dentro da recepção, ainda bem que aquilo estava vazio, estavam todos a contar que eu já tivesse partido, e começo a remexer os papéis. Pego num pedaço de jornal com uma notícia escandalosa. Mais uma pessoa morte da família Oska. Vejo a data do jornal e reparo que fora apenas dois dias a seguir ao meu sétimo aniversário. Olho novamente para a fotografia e reconheço vivamente o sujeito, era a pessoa que me tinha feito tantas cousas de mal no passado em apenas trinta minutos. Vi o nome e, qual não era o meu espanto, tudo começava a fazer sentido, pelo menos nos primeiros casos, podia ser apenas coincidência mas o meu inconsciente sabia que era a verdade, Bob Oska. Sentei-me no chão a pensar o que é que tinha acontecido em tão pouco tempo. Percebo eu agora o porquê da companhia do senhor Carllos e Florbela Oska me enviarem um bilhete de avião tão repentino para Londres. Estava farto daquela terra, sempre a chover, já chateava uma pessoa normal, quanto mais uma pessoa que acabava de saber que aquilo era todo o seu passado infeliz. Londres adeus, olá, finalmente, Portugal, olá Lisboa, olá hotel, olá Rio Maior. Orfanato, morte, morte, morte, violação, morte e morte, adeus. Vida, esperança, alegria, cheiros moribundos, sol, sol, sol, olá, felicidade.
Recheguei a Portugal, recheguei ao hotel, Boa tarde senhor recepcionista, Vejo que está de bom humor senhor do quarto vinte e cinco, Estou sim senhor, é sempre bom regressar a uma terra de bom agrado, Londres estava assim tão má, Nem por isso, era mais a chuva de memórias que a chuva torrencial, então e o meu quarto, ainda está disponível, Está sim senhor, houve muitas reservas mas disse sempre que o hotel estava cheio apesar de ter este quarto vazio, Muito obrigado, agradeço-lhe muito, estava eu já em direcção ao elevador quando me lembrei de regressar à recepção para fazer duas perguntinhas, Senhor recepcionista, alguém deixou algum recado para mim, Não senhor, apenas aquele telegrama onde me enganei a entregar e coloquei no quarto número trinta, Por falar nisso, fiz-me de subentendido e que me lembrara na época, os senhores desse mesmo quarto ainda estão aí hospedados, Mais ou menos senhor, Mais ou menos, interroguei ao ar, ou é sim ou é não, Não é bem assim, no dia a seguir ao senhor ter partido para Londres, a senhorita que dormitava o quarto trinta saiu com as malas na mão enquanto o seu namorado veio aqui mesmo, à recepção, dizer que a conta do hotel passaria a ser apenas metade pois apenas metade dos prejuízos seriam feitos, e assim o fiz, Então quer dizer que esse quarto está habitado pelo senhor ex, Pelos visto, foi o que aparentou ser, O que quer dizer que a senhora Cristina está não sei onde, obrigado por tudo e boa tarde, Boa tarde senhor. Cheguei ao meu quarto e, ainda não tinha arrumado os meus pertences, melhor, rearrumado, fica sempre bem inventar palavras quando se regressa a um local bem-parecido como o belo hotel de Lisboa, telefonei logo à senhorita Cristina, Estou, responde ela com voz doce ao simples toque do telefone, Estou, é o senhor do quarto vinte e cinco, é a senhora Cristina, Ah és tu que alívio, Segundo o que o recepcionista me disse tu saíste do hotel, Saí pois, então o que se passou, eu fiquei preocupado, Não era caso para tanto, apenas estava farta de aturar o meu querido ex, segundo a minha família e a dele noivo, segundo as outras pessoas namorado, mas para mim é apenas um ex, ex nada, nem ex noivo nem ex namorado, ex apenas, Acho muito bem, se tu pensas que fora a melhor opção, Então e o tal café depois de regressares de Londres, Como sabes que já regressei, pergunta estúpida que eu fizera, Primeiro tinhas-me dito que, em Londres, demorarias apenas uma semana, e depois disseste-me que o recepcionista te tinha informado, Ah pois foi que estupidez, o café pode ser logo à tarde se preferires, Claro que sim, Então vou só tomar um banho rápido e depois sigo logo para te ir buscar, já agora, onde, Podes-me vir buscar, essa tem graça, eu tenho carta e vou-te eu mesma buscar aí ao hotel. Assim ficou decidido, fui tomar um banho rápido, desci ao bar e almocei algo rápido mas, como sempre se diz, devagar se chega ao longe, sujei logo a camisa e tive que ir trocar por uma t-shirt normal, mas logo saí do hotel, não deixando de reparar no tal dito vaso que se encontra no interior do hotel e em frente ao elevador, enfim.
Saí do hotel e vi que estava a cidade, bela e formosa, decorada, deveria ser para um festival qualquer, pensei, e então vi um carro chegar. Preto, cinzento, branco, as cores do carro segundo passavam de uma iluminação fraca para uma mais forte. A matrícula era portuguesa, mas esta em si não me diz respeito proferir, entrei no carro, cumprimentamo-nos e seguimos o caminho. Chegámos a um hotel todo formoso, todo pomposo e todo chipitititi. Tomámos um café rápido e regressámos ao hotel. Ela foi até ao meu quarto, tínhamos feito a viagem, e a bebida tomada também, sempre a falar, mas ela disse que tinha informações importantes para proferir comigo e que tinham que ser em privado, no meu quarto era o melhor lugar. Sentados na cama, Depois de tanto ter acontecido, tive que regressar a Londres, estava-me a sentir tão bem aqui em Lisboa e tinha que receber aquela atroz notícia, Mas se assim não fosse também não descobririas o nome do homem que te fez tanto mal, É verdade, nem sei como consegui mas e sempre bom falar as cousas com quem as compreenda e, penso eu após tantos atrofiamentos, que tu és aquela que irias melhor entender-me, Então a única coisa que tu sabes, começa ela a relatar, é que Lady Oska fora morta no Big Ben, seu corpo ficara por cima de uma tampa de esgoto, que os seus filhos tiveram sucesso com a empresa mas que um deles, se não me engano, o mais novo, morrera dois dias após ter realizado actos sexuais contigo, Infelizmente, perdi a minha virgindade da pior maneira, e muito cedo, apenas com menos de dez anos, Eu por acaso, aqui conversa entre dois amigos, perdi a minha quando quis, nisso não tive problemas, Mas tu disseste que querias vir para o meu quarto falar porquê, Eu não pedi para virmos para aqui, pedi para um local mais privado, mas tu escolheste o quarto, maroto, e riu-se como uma esquila, Ahahahah, ri-me eu logo a seguir, Então é assim, começou ela logo a dizer as cousas que sabia, após ter deixado de rir, demorou menos de cinco segundo a parar o que começara em menos de um, após deixar aqui o hotel fui para casa, lá encontrei, no sótão de casa de meus pais, uns jornais velhos, O que tinham os jornais, Deixa-me terminar, Oui madame, Olhei para a data e vi que era de à pouco tempo, cerca de trinta anos, e foi quando eu olhei para a capa e reparei na notícia que ali estava, Lady Oska assassinada aos pés de Big Ben, o que pensei logo em ti, Talvez tenha sido por isso que me escolheram a mim, talvez saibam cousas sobre mim que eu não saiba, pelo menos sabiam que eu tinha uma ligação com um membro da família Oska, Infelizmente tinhas, mas vamos deixar de falar de cousas destas.
Ela aproximou-se de mim, deu-me um beijo na face, perguntou se que queria saber como era perder, realmente, o grande V, Mas tu não me ouviste antes, eu já perdi a virgindade, de uma maneira muito má, infelizmente, Mas esquecendo tudo isso, queres perdê-la agora, Como assim, eu, ela nem deixara eu acabar a frase, beijara-me na boca, que falta de educação a minha, estava de olhos abertos de espanto, mas tinha que retribuir o favor, agarrei-lhe nas ancas e começamos a beijarmo-nos como loucos. Pouco tempo depois eu já me estava a ver a mexer-lhe numa das suas magníficas montanhas, a desapertar a corrente que prende as pedras da sua magnificidade, ao mesmo tempo que nos beijávamos perdidamente, começou, ela, a mexer no meu local privado, para o qual constatei que estava petrificado como uma peça de cimento, mas este cimento mole. Segundos depois, vou poupar a alguns pormenores, já nos encontrávamos nus e a experimentar muitas posições, é claro que tudo fora depois de colocar protecção, um capacete dá sempre jeito, na brincadeira, preservativo. Momentos depois, estava ela a chupar o meu belo chupa-chupa, eu a lamber o prato de gelado das suas perfeitas entradas, depois, depois, depois, ai o êxtase das recordações é tanto que nem consigo recordar bem o que sucedera, só sei que no fim acabámos por ficar tão contentes que, quando ela fora embora, eu ainda estava nu e com o pau à espera de mais uma abertura de champanhe, o qual fiz o esplendoroso favor de sacias a sós comigo mesmo.
Luís de Camões, Vasco da Gama, Diogo Cão, D. Afonso Henriques, D João, este não enumero pois tantos são e poucos com obras esplendorosas, D. Dinis, D. Sebastião, Francisco Gomes Teixeira, Fernando Pessoa, José Saramago, Eça de Queirós, entre outros. Lusíadas, Mensagem, Portugal, Convento de Mafra, “O plantador de naus a haver,”, Sebastianismo, Matemático, Mensagem, o seu sonho do Quinto Império nunca mais se viu, é pena, gosto muito de Portugal e gostava também que fosse a cabeça da Europa toda, Memorial do Convento, Os Maias, entre outros. Vossemecê é informado de tais nomes e de tais obras, respectivamente, pois, apesar de Londres ser a sua terra natal, Portugal é a terra Nova. Nova no espírito, nova na inovação, nova na criação, nova na abundância de cultura, nova, Nova. Nova uma ova. Nova sim nesta crise, podre e pobre este país fica apenas em se pensar em crise monetária, daí este ser, também, o primeiro que irá inovar, será o novo a criar-se e não a ser criado. Muito sonho para uma pessoa só. Tudo isto eu sonhei naquela noite após a minha virgindade ter regressado e desaparecido normalmente, como devia de ser, formalmente, como se eu tivesse aberto a porta de abertura e ela ter entrado dentro de outra casa que não minha, neste caso a da Cristina. Ai ai, enfim.
O esplendor de Portugal nunca fora levantado devidamente. Londres não se deve falar abertamente pois, para mim, é como um ser, alguém que nunca deu valor aos seus não dá valor aos outros. Lady Oska nunca teve problemas para conseguir observar o que tinha em mente, nunca ridicularizou ninguém, nunca chamou nomes feios, como dizem os meninos pequeninos, tão fofinhos, que ironia, alguns são mesmo mauzões, enfim, racismo nunca fora visto por ela, discriminação pouca ou quase nenhuma. Agora que penso nisso, Lady Oska fora a primeira pessoa a conseguir fazer algo de bom em Londres, pelo menos sempre se falou nela, imaginem só vossas excelências que, como sabem, nasci bem depois da morte dessa senhora, mas mesmo assim sempre ouvi dizer bem dela e sempre me educaram que ela é aquela deusa que se deve utilizar como exemplo de vida. Não o é, mas tinha tudo, mesmo tudo, fogo que mulher, espectáculo, para ser santa. Desculpem dizer isto mas que raio de cousas para se pensar durante um sono. Apenas estou a escrever palha aqui pois a história vai realmente começar a seguir.
Desta vez algo estava diferente, depois de uma semana sem nada fazer, algo estava diferente. Estava a chover. Vesti-me, lavei os dentes, saí do hotel, claro está, apenas me dirigi para o exterior do hotel após dirigir os bons dias aos senhores na entrada e aos que encontrava pelo caminho, senhores lá está, senhora não vi, dorminhocas são. Não tinha chapéu, Aqui tem este senhor, Obrigado, era o recepcionista do hotel que me tinha trazido um chapéu que tinha ficado lá no hotel, abandonado, pobre chapéu, simplesmente triste este chapéu. Cuja e cruel tal tristeza que a vida a morte não paga. Adorei os cinco minutos que demorei a chegar desde a porta até às escadas, a ouvir as gotas da chuva no meu chapéu, meu como quem diz. Pi pi, ouvi alguém a buzinar, olhei e vi um carro à minha espera, É você o senhor que está a ajudar o Carllos, Porquê meu senhor, Escusa de responder que já reparei que é você mesmo, e pronto começou. Deu-me um soco, larguei o chapéu e também lhe esbati a minha mão de punho fechado na sua face, ele rasteira fez, eu murro dei, ele pontapé na minha flauta, que dor, eu caído no chão, desde esse momento só me lembro de ter os olhos fechados e de estar a levar todos os pontapés possíveis e imaginários, na barriga, na cabeça, nas pernas, onde calha-se, e ouvir, no final da pancadaria, Aprende que eu não duro sempre, e desmaiei, cheio de dores e sangue espalhado por todo o chão, Será que morro agora, pensou o meu inconsciente, diz-se que quando a morte se aproxima nós observamos toda a nossa vida num flash a passar entre os olhos e a vista, nada disso, pelo menos não a mim, eu encontrei-me como que numa sala completamente escura, de repente uma luz brilhou, A luz no final do túnel, questionei, não, A luz da esperança, talvez, A luz da Verdade, em princípio, mas de certeza absoluta, A luz da Morte. Senti-me, nesse quarto, a desmaiar e só consegui, desta vez, olhar para a luz e ver lá alguém, parecia-me a estrutura feminina de alguém, parecia que alguém me esperava. Agora é que realmente me questiono, Será isto o que se vê entre a Vida e a Morte, a Vida consciente e a Morte inconsciente, dizem-se que os nossos espíritos ficm na Terra para ultrapassar a Luz para o outro lado, será que quem fica na escuridão sem saber para onde ir é quem realmente fica na Terra, será que a Luz é realmente alguém importante para mim.
Abri os olhos e vi tudo branco, estava a olhar em frente, neste caso para cima porque eu estava deitado, cheio de ligaduras e de gesso, Ainda bem que já acordas-te, disse Cristina, O que me aconteceu, Eu estava chegar ao hotel quando vi alguém a correr para um carro e, muitos poucos segundos depois, vi-te no chão, cheio de sangue, gelado que nem uma alma penada, ensanguentado pelo chão vermelho, claro, escuro, credo já lá vai, Pelo menos ainda bem que chovia, ainda bem que a chuva me acompanhava, Porquê, Porque assim lavou Lisboa de mim, não deixou eu, senhor que adora Portugal, manchar de sangue seu nome, sua estrada, sua Lisboa nossa, Só tu para pensares assim na maneira como tu estás, O que me aconteceu a seguir, Vieste para o hospital Santa Maria, aqui em Lisboa nossa, como dizes, e riu-se, também achei graça, não vou negar, Quanto tempo dormi, Dois dias, Que dualidade infernal, Vida Morte, conscientemente inconsciente é o que é, porquê o gesso, Tens que estar em repouso absoluto, tens algumas costelas partidas, partiram-te o braço direito, Ainda bem que sou esquerdino, rimo-nos, Então porque também tenho gesso nas pernas, Porque ficas-te muito lesionado que se apanhasse algum tipo de bactéria ou ar podia ficar muito mal, mas não te preocupes, Porque dizes isso, Porque vou continuar os teus assuntos da senhorita Oska, Lady Oska, Não não vais, eles que esperem que eu recupere, Tu sabes que isso vai demorar no mínimo alguns meses, depende de ti, Já viste o que eles me fizeram, não quero que a cama aqui ao lado fique ocupado com o teu corpo, quero-te a correr, Mas eu só quero correr para ti, beijou-me nos lábios, ui, doridos, Eu já sei de tudo porque já me contas-te, agora deixa tudo comigo, De certeza, Claro que sim.
A partir de agora irei deixar de escrever este documento porque estive no hospital durante um longo tempo, não sei o que aconteceu durante a minha ausência nem a Portugal nem à família Oska, por isso, após Cristina me contar toda a verdade do que acontecera, pedi-lhe gentilmente, e com muito sacrifício, ironicamente sexando, para que nos próximos parágrafos fossem as palavras de meu amor Cristina e não minhas. Aqui vem ela, Estás pronta, Estou, Vou para o quarto, Chega-te para lá e deixa a artista começar. Agora apenas digo eu como ultimas palavras de uma pausa profundamente breve, Bom dia.
Olá, agora sou eu, Cristina, posso não ser tão descritiva como meu querido, ups já ia proferindo seu nome antes de tempo, mas irei tentar afirmar o melhor possível o que eu experienciei, o que eu vivi, o que soube de Lady Oska enquanto meu amado estava numa cama de hospital, iria lá ficar três meses, depois mais sete na cama de casa, melhor, do hotel, e mais dois de fisioterapia, eu estive envolvida neste projecto durante cerca de um ano. Agora é a minha vez, Bom dia amores, na brincadeira.
Logo após me ter comprometido que iria continuar com o caso, saí do hospital e vi uma pessoa de gabardina preta e chapéu, da mesma cor, a dirigirem-se para mim, Bom dia, Bom dia, o que deseja senhor, Soube que a senhora socorreu alguém perto de um hotel, é verdade, Porque pergunta, Porque preciso de falar urgentemente com essa pessoa, E o senhor é, Meu nome é Jorge de Andrade e gostaria de falar com o senhor que a senhorita socorreu, E que tal falar comigo, ele está a descansar, sei quem o senhor é e, também sei, que foi graças a algo que o seu patrão fez que pôs o meu querido assim, Peço desculpa por tudo o que aconteceu, Mas não é o senhor que tem que pedir desculpa, eu só tenho pena de não ter conseguido ver a matrícula, Pois isso já não posso ajudar, Mas também já não interessa, o mal já está feito e eu não faço intenção de fazer mais porcaria do que aquela merda que já está feita, Palavras bonitas senhora, e riu-se, Está-se a rir de quê, De nada, perdoe-me, eu apenas vim falar com seu ‘querido’ porque tenho uma mensagem para ele sobre algo que precisa de saber, apenas esse senhor, eu cheguei-me perto do ouvido dele e proferi, Lady Oska, Sim, como sabe, Ele contou-me tudo, agora, enquanto ele está assim, estou eu a tomar conta do caso, Mas então ninguém o pode saber, Porque pode acontecer-me o mesmo que aconteceu ao senhor Anónimo, Sim exactamente, mas não tire conclusões precipitadas, ainda não se sabe quem foi, nem o porquê, mas esta pode ter sido uma razão para tal, Mas vamos lá falar que já se faz tarde, Não sei bem porquê, conhecia-a agora, mas confio plenamente em si, Não é a primeira pessoa a dizer-mo, mas desde já agradeço, obrigada.
A chover estava, a chover a potes e a cântaros, ai Jesus que a chuva pare, mas nada. Sentámo-nos numa esplanada de um café, obviamente que a esplanada estava coberta por uma espécie de chapéu, por cima, não somos assim tão doidos, Então digam lá o que desejam, Para mim pode ser um café, por favor, diz Jorge de Andrade, Para mim é uma água com gás, se faz favor, pede-se ao empregado, Volto já, afastou-se, Agora nós os dois, o que se passa com Lady Oska, Com ela já não se passa nada, já faleceu à tanto ano, Segundo sei faleceu antes de eu ter nascido, Sim, Mas se foi assim à tanto tempo porque há tanto trabalho para esclarecer tudo, Primeiro temos informações sobre Lady Oska ser portuguesa, Como assim, Quando os netos, Carllos e Florbela, foram ao quarto dela para procurar um fato decente para o evento fúnebre, no dia a seguir ao seu falecimento, encontraram uma carta escrita por ela, eu tenho uma cópia, se fizer o favor, E faço obrigada, “Olá meus queridos netos, eu sabia que iam encontrar esta carta em cima de minha cama, e escrevi-a porque sabia que ia falecer hoje, por isso mesmo deixei um testemunho a dizer que algo se passava comigo, apesar de viver em Londres, felicíssima sem dúvidas, eu sou portuguesa, tenho origens portuguesas, tudo o que eu fiz, tudo o que eu ensinei àqueles com quem estive, tudo o que ensinei a meus filhos e até mesmo aos netos, vocês dois, foi-me ensinada pela minha família portuguesa. Eu vivi durante um tempo muito difícil em Portugal, não se podia abrir a boca que poderíamos ser presos por dar a nossa opinião, nem que ao ar fosse, daí eu ter sabarcado uma ideia de uma vizinha e fugi para Londres o mais depressa possível, infelizmente tive que deixar tudo e deixar de falar a todos, para que saibam que não são totalmente ingleses, não poderia partir sem que alguém da família soubesse a verdade. Não quero que procurem nada sobre a minha vida, apenas quero que saibam que, não me orgulho disso mas, fui infiel ao vosso avô uma única vez, e chegou-me para engravidar, contei-lhe a verdade, perdoou-me, mas colocou uma condição para eu não ser recambiada para Portugal, adoro este país, mas na altura preferia viver em Londres, tinha relógio, que ironia, cousa alguma eu alguma vez proferia ser saber que era verdade, a condição fora eu abdicar da criança para adopção, a qual não fora necessária. Conhece-mos uns senhores, nova e tenra idade, deviam de praticá-lo cerca de três a quinze vezes por semana, mas não conseguiam engravidar, então, como os conhecia e sabia que o iam tratar bem, não pensei duas vezes, eles foram os únicos a saber o que se passou, nem meu marido soube o que se passara, apenas soube que o bebé desapareceu, era o que lhe interessava, um senhor de negócios não podia ser visto com um filho bastardo, então com um filho que não era dele mas apenas da sua esposa, ui, cai a trindade. O que eu quero dizer com isto tudo é que, apesar de ter tido mais dois filhos, vosso pai e Bob, o parvo do violador, já sei de tudo, quer dizer sempre soube, pelos seus tiques em criança e sinais assim que só as mães percebem, mas não podia fazer nada, quer dizer, ele é meu filho, amo-o na mesma, mas fiquem sabendo que têm mais um tio, daí a minha preocupação para vos contactar. Fugi de casa naquela noite, subi ao Big Ben, desde que chegara que adorara aquele relógio, que oiço todos os toques deste relógio magicamente integral para mim, sou santa quando o escuto. Eu sabia, e não quis querer.”, Já a leu certo, Já, já, os tempos verbais que ela utiliza são praticamente todos no passado, como se, quando ela escreveu a carta, soubesse o que lhe iria acontecer, Há quem acredite que os espíritos escrevem, riu-se, Não acho graça, calou-se, a famosa e grandiosa Lady Oska com que então era uma senhora igual a mim, portuguesa, de boas educações, mas com medo de falar graças, bem, por aquilo que ela diz, era graças à PIDE, eu é graças à minha família, a minha ‘PIDE’. Jorge de Andrade fez o gesto de pagar a conta e então separamo-nos, ele segui para a empresa e eu segui para minha casa, levei a fotocópia comigo. Um tio, eles têm um tio, será que é isso que eles querem encontrar, mas então porque é que não procuraram alguém que avalia-se a árvore genealógica, talvez o tenham feito, talvez tenham procurado uma pessoa diferente para cada assunto desta carta, talvez não tenham procurado, não sei nada, a única coisa que realmente sei é que meu querido Anónimo fora a única pessoa a ser chamada para procurar, novamente, as razões pela morte de Lady Oska, primeiro fora um senhor normal, despois seu filho mais velho, mais novo sofre a perda de ambos, de igual maneira que sofre pela mãe, Vou a Londres, disse eu, menina mal intrujada e mal vestida. Pedi tudo o que precisava ao senhor que estava no hospital, meu amado, e fui embora, que viagem, mas finalmente já cheguei.
Uau, não pode ser, que surpresa, está a chover. Tinha que conseguir desvendar o segredo, pelo menos tentar, de alguns dos passos da carta, e por isso, tal como ela disse, ou diz, Big Ben, quando o ouvia era santa, acho que o melhor a procurar é aí, deve de ter alguma informação ou algo relacionado com tudo isto. Agora há uma frase que não consigo entender por mais que quisesse, adianto desde já, a vós senhores netos de Lady Oska, remetentes desta carta, que esta mesma frase vai ser explicada por meu esposa mais à frente, ups, já revelei que ele vai continuar com o caso, mas isso já deviam de saber, riso irónico podia ter mas vou passar à frase em si, não consigo perceber “Eu sabia, e não quis querer.” Andei cerca de alguns minutos, contá-los seriam um sacrifício, que dizer, estou praticamente à chuva. Cheguei ao Big Ben, olhei para a esquerda e lá estava, a tampa de esgoto sobre o qual, supostamente, Lady Oska teria caído, aprocheguei-me. Olhei com atenção para a tampa de esgoto, não reparei no que estava à superfície, apenas vi, nos rebordos, algo de estranho, tudo à sua volta estava como que seco daquela chuva, para tal acontecer é porque tinha que ter algum tipo de superfície englobadora de água, não sei se isto se diz mas olha, também sou da aldeia por isso. Cheguei perto da frente do grande relógio, aquele que dava, se se olha-se para a direita, para um cemitério, segundo o qual está Lady Oska e todos aqueles que participaram nas suas investigações, olhei para cima e vi uma nuvem estranha, devia de ser minha pura imaginação. Os relógios têm uma parte que se abre, normalmente é no seu verso, nas suas costas, este tem uma porta secreta que eu descobri ao apalpar todos os aparates do relógio, todos os altos e baixos exteriores.
Era uma pequena sala, todo arranjada, não devim de lá ir à muito tempo, quer dizer, não sou bruxa, mas as teias de aranha não enganam. Parecia que aquilo era um esconderijo de alguém. Estava lá uma cama, uma secretária, um lápis, uma goma de apagar, ou borracha, um espelho, uma faca, certamente para afiar o lápis, uma pena e o seu respectivo tinteiro. Parecia que, quem lá estava, deixou algo por escrever, quer dizer, começou a escrever algo, mas o papel tinha uma linha de tinta, certamente alguém fora arrastado para fora e a pena continuava a largar tinta enquanto isso acontecia. Era letra de criança. Era uma composição intitulada de “A Bola de Sabão”, “Era uma vez uma bola de sabão, esta que voara por céus ardentes, escaldantes até, tão quentes que a própria bolha dizia, Ai, a passar por eles, ventos cortantes, mas não o suficiente para cortarem a bolha. Era uma bela bolha, assim…” e acabou. Parecia engraçada, mas cópia não parecia, agora de redimo, livros não encontrava, quem quer que estivera aqui tinha que ter alguém de fora a ajudar, quer dizer, uma pessoa não iria sobreviver num quarto escondido perante o mundo e Londres inteiro dentro de um relógio, acabara de chegar à conclusão que era realmente uma composição de carácter infantil. De repente ouvi os sinos e os gonzos do belo relógio Big Ben, doze badaladas, como era de dia quando entrei, certamente que não passou assim tanto tempo, era meio-dia, e não meia-noite. Deitei-me na cama e vi que estava muito empoeirada, não fazia mal, eu gostava de pó.
Três da tarde, almoço tomado, voltarei hoje à noite à sala secreta no Big Ben, ouve algo lá que me despertou uma atenção excepcional, um espelho, se alguém vive, ou se refugiava, naquelas circunstâncias, como é possível estar ali um espelho, melhor, reformulo, para que serve um espelho, para estar papel, pena, tinta e tudo o resto, letra de criança, histórias de criança, por acaso só encontrei uma mas falar, neste caso escrever, no plural é chique a valer, palavras de meu antepassado, não familiar mas cultural, Eça de Queirós, para que quereria uma criança um espelho.
Jantar tomado, hora desconhecida até voltar a ter bateria no meu telemóvel, sete e meia da tarde, quer dizer, já noite, calor, algum, nuvens no céu e poucas águas espalhadas por Londres, agora finalmente consigo observar outra cidade para além de Lisboa. Meia hora até ao Big Ben, tinha que verificar, tal como fiz a primeira vez, se ninguém me seguia ou se ninguém me via a penetrar, que palavrinha, no relógio, na câmara secreta. Cemitério fechado, luzes de volta, água nenhuma, pessoa alguma, ninguém a olhar para ali, resolvi entrar. Eram dez para as oito da noite, minha hora de jantar em Portugal, lá são nove da noite, se não me engano.
Entrei e tudo estava normal, quer dizer, eu sei que aquilo não era normal, mas estava tudo como eu tinha deixado. Espreitei por debaixo da cama, o qual me deu a entender que alguém tinha tido companhia, estava lá um esqueleto de um rato, mais especificamente, de um hamster, que nojo que me deu, encontrei um baú, pequeno, é certo, mas valioso para a pessoa, suspeitava eu que criança era, que lá permanecia. Abri-o, com todos os cuidados, claro está que por baixo da cama o pó também vai, que dizer, este não é nada esquisito, não escolhe sítios para se apoderar, o seu pequeno reinado, o pó é mundial ou julgam que, lá por terem empregados para vos limparem a casa e não o verem que é um bicho de outro mundo, nada disso, tinha lá algumas fotografias, uma carta e um pendente que se abria, por dentro tinha outras duas fotografias que mais tarde explicarei.
Estava sentada na cama mas logo me levantei, quando começara a ouvir um som estranho por cima de mim, só então reparara que duas das paredes do quarto não eram de madeira ou de tijolos, não percebo muito de arquitectura, a primeira, a da entrada, era normal, era feita do mesmo material que o exterior do relógio, mal se entrava, as respectivas paredes da esquerda e da direita, são de material consistente, agora não me perguntei do que são porque ainda vos iria baralhar mais do que desembaralhar, a parede onde estava encostada a cama e o tecto eram de vidro, lá dentro apenas estava calor no verão, mas não muito, pois era nesta época que lá estava eu dentro da sala, estava fresquinho, o vento calorento penetrava as brechas do relógio e com os movimentos das suas rodas dentadas o ar modificava-se magicamente para um mais fresco, este que passava, entre os buracos dos ratos e algumas brechas que existiam entre as paredes de vidro e as de outro material, para o quarto onde me encontrava. Reparei que, do lado de lá, estavam alguns espelhos pendurados e que alguns deles estavam com um certo brilho. Pensei que talvez tivesse algo a ver com o espelho que está no quarto, quer dizer, porque é que uma criança quereria um espelho afinal, supondo que era uma criança ali a viver, então decidi pegar no espelho e ver se existia alguma espécie de luz ali. Por um buraco que o relógio tinha, alguns pequenos mas este maior, entrava a luz, pela qual certamente quem ali dormia poderia ver durante a manhã, à noite xixi cama, eu consigo ver porque a lua está bem alto e alguma luz dos candeeiros é esbatida para o interior do estabelecimento de cinco estrelas, ao contrário, digamos assim, então coloquei o espelho na brecha de luz que penetrava o buraco, o qual logo reflectiu, mas tentei colocar este reflexão espantosamente brilhante no outro espelho mais baixo, quando o atingiu, este brilho, atingiu logo os outros espelhos, como estavam todos inclinados, foram subindo a claridade, pequena é certo, até se ouvir uma espécie de um sino e começar a brilhar o topo do relógio.
Saí do quarto e mirei o topo do relógio, arranjei maneira de o espelho continuar inclinado e a apontar, o reflexo obviamente, para os outros espelhos, e vi que estava ainda mais iluminado, não estava ninguém na rua na altura, ninguém como quem diz, eu sou gente afinal de contas, e o reflexo transmitiu uma frase, “A Vida e a Morte começam com a vivência das mentiras na verdade do ser e, assim, cada um acarreta com as suas responsabilidades, LD”, percebi logo que LD significava Lady Oska, fora esta a autora de tão grandiosa frase, depois iria tratar de a descodificar, escrevi estas palavras numa folha e guardei na minha mala, Hi there, can you say the meaning of that words please, Desculpe, mim nõn talking inglish, Oh sorry then, bye and thanks, eu tentei me desenrascar com a senhora inglesa, eu não falava muito bem inglês, quer dizer, nos hotéis fala-se português e é a primeira vez que estou aqui nesta ilha, inglesa é certo, mas eu sou portuguesa e tentei perceber o que se passava na cabeça de Lady Oska, será esta senhora realmente como todos a viam, ninguém o sabe, quer dizer, meu querido já sabe, mas apenas o dirá mais à frente, depois de sair do hospital no que estou a contar, o que corresponderá, após regressar a Portugal, a oito meses, decidi ficar em Inglaterra e aproveitar aquelas férias, mas antes regressei ao quarto e reparei que os espelhos tinham algumas letras, aqueles que eu conseguia, obviamente, observar, lá coladas, a preto, a cor, então decidi ir para o hotel. Boa Noite e até daqui a um mês e pouco.
Decidi não me preocupar muito com a frase que estava no relógio, pelo menos não enquanto estiver de férias em Londres, quer dizer, afinal de contas, as férias foram feitas para descansar e, visto que não tenho emprego e estou cheia de preocupações graças ao desemprego e a tudo isto de Lady Oska, um descanso nunca calha mal. Eu sempre vivi com o dinheiro que a família do ‘marido’ lhe dava, dava para nós os dois vivermos, até ele decidir ir para um hotel. Enfim.
Estava a sair do hotel em Londres quando recebi um telefonema, Bom dia, Bom dia, fala a senhora Cristina, pergunta uma voz, parecia de bruxa, Fala sim, quem é, É do hospital, como deixou aqui o seu contacto, o senhor acamado que a senhora decidiu trazer para este estabelecimento precisa de falar consigo, Obrigado, então, por favor, passe-me o telefone ao meu senhor sua vaca ordinária, Desculpe, Vá a despachar caralho, senão ainda mudo esse senhor de hospital e a senhora fica com menos dinheiro com a queixa no livro de reclamações, ou pensa que não percebi que aquilo que me disse foi com ar de quem está a ter trabalho a mais com esse senhor, É para já madame, Não é já, é imediatamente, Sim, és tu Cristina, Sou sim, diz-me, recebi uma visita muito curiosa aqui no hospital, era Florbela Oska, O que queria, Vinha ver como eu estava, ordem de seu irmão, e vinha, ordem de ambos os netos de Lady Oska, dirigir-me uma informação, Então, conta-me depressa que estou a chegar ao aeroporto, Pois é isso mesmo, não venhas para Lisboa, vai para o Algarve, mais especificamente, Albufeira, Porquê, Porque supostamente Lady Oska era filha de uma senhora que vivia no centro e de um senhor do sul, eles iam os verões ao mesmo sul para a praia e assim, pode ser que encontres a sua casa e que esteja lá alguma informação, OK, vou já para lá, Amo-te, Oh que fofinho, também te adoro. Assim começou uma nova busca, esta que iria terminar longamente, iria demorar cinco meses a encontrar a casa do pai de Lady Oska, ou seja, sete meses desde que estive longe de meu querido, quase o tal ano, ou seja, ele já não estaria no hospital no meu triunfante regresso.
Solo algarvio pisei, Albufeira cá estou, por tudo o que sabia é que, antigamente, gente sem posses, para ir à praia é porque teria que viver perto da praia, assim fui para perto de uma praia, de táxi, chamada praia da Rocha Baixinha, eram prédios a dar em todo o lado, hotéis aqui, ali, melhor, acolá. Não conhecia nada disto, Portugal desconhecido para mim, Olá senhora, Olá, Vejo que a senhora não é de cá, Como sabe, Bastou-me olhar para si, diz-me uma desconhecida, já consigo observar os turistas a olho nu, ri-me, Se quiser alugar um quarto esteja à vontade em falar comigo que eu estou sempre disponível para emprestar tal assoalhada, nem que durma no chão de minha própria casa, Ai credo, não é preciso tanto, por acaso não tem nenhum quarto aqui perto, apontei para os prédios, Tenho sim, mas irá sair mais caro por ser perto da praia, Quanto, Trezentos e cinquenta euros, Uou, Por duas razões, perto da praia, primeira, verão está a ser agora, segunda, Aceito, Muito bem. Pronto, já tenho casa, agora vou-me instalar por isso desejo-vos a todos um belo e esplendoroso dia, Bom dia.
Tinha direito a piscina. De manhã decidi ir para esta e apenas à tarde ir procurar informações, quer dizer, uma mulher que já está morta à tanto ano, não se importaria de ficar assim durante mais algum tempo, melhor, mais umas horas. Toalha no relvado, deitada estive desde as oito da manhã, dou madrugadora, até dez, com protector claro, o sol também não estava quente e, de vez em quando, lá passava uma nuvem a fazer o céu mais fresco. Levantei-me e mergulhei, que choque térmico, mas não sou capaz de me ir molhando aos poucos, quer dizer, ser capaz sou, mas não sou expert nisso, que remédio na praia, tem que ser assim, fui até ao fundo da piscina, tive tempo de lhe tocar com as mãos, de me virar ao contrário e de me sentar no fundo, bater com o cu no chão se é que me entendem, e de dar um pontapé no chão para vir, rapidamente, ao de cima, ao topo, à superfície. Era meio-dia quando saí desta praia sem areia e sem ondas, a água era salgada, sem cloro. A caminhar para casa algarvia, para ir fazer o almoço, iria demorar uma hora a fazer, comer, e despachar para ir procurar informações, comecei a pensar na carta e na frase, mas nada me ocorreu, que filósofa Lady Oska, que simpática Lady Oska, que matrimónia Lady Oska, Inglaterra amava esta mulher, apenas era conhecida por seu marido ser igualmente conhecido, mas era tanto valor, moral lá está, como o de seu esposo, este monetário. Segundo notícias antigas, o seu marido morreu algum tempo depois ao nascimento do segundo filho, melhor, agora com esta descoberta de um filho bastardo tem que se modificar as frases, do terceiro filho, Bob Oska. Lady Oska. Lady. Oska. Espera lá, o seu nome trocado, um anagrama de, Day Kaos L, não percebo muito de inglês nem de misturas de palavras mas, Caos do dia L, que dia L. Ai que embrulhada. Bem, Bom almoço. Nada, procurei por tudo e nada, por todo o lado e nada, por todo o Algarve, talvez esteja a exagerar, talvez não, é uma certeza que estou a exagerar, enfim, procurei por todo o canto que encontrei, menos no pinhal perto de casa, a minha ida estava escrita para lá amanha.
Acordei, tomei o meu banho, e vesti uma roupa mais desportiva. Saí da casa alugada, o meu querido estava prestes a sair do hospital, tinha que me despachar claro está, e fui para o tal pinhal. Entrei e, mal ponho o pé no chão, pumba, tropeço e cara na merda de um animal do bosque, ainda bem que o anûs do animal devia de ser minorca, só me sujou um pouco, mas fiquei com um pivete a cardos com baba de caracol horrível. Levantei-me, com calma, quer dizer, uma senhora nunca se levanta com pressa, a não ser quando está a ser assaltada e precisa de dar um murro no focinho de alguém, mas espera lá, eu não sou nenhuma senhora. Andei bem uma meia hora pelo meio do bosque. Encontrei um poço, cheguei-me mais perto e vi que tinha um balde, estava a andar há muito tempo e por isso, como o poço tinha água limpa, aproveitei, mandei o balde lá para dentro e retirei uma baldada de água para cima de mim, e depois mais um bocadinho para o meu estômago, também tem direito. Ao lado do poço estava uma casa toda bem-feita, mas muito pequena, na qual eu decidi entrar. Estava toda cheia de pó, provavelmente alguém morava ali e já não mora, pelos vistos há muitos anos. Decidi explorar a casa porque podia ser aquela a casa da famosa Lady Oska. Vasculhei tudo mas só encontrei aranhas, pó, e um medalhão. Abri-o e tinha, escrito claro, dois nomes, Jorge e Andreia. Fui procurar nos quartos e encontrei fotografias espalhadas por todo o lado. Encontrei uma fotografia de dois irmãos, assinada por eles quando aprenderam a escrever, uma rapariga e um rapaz, Jorge e Andreia, “dois irmãos inseparáveis”, segundo a fotografia. A caligrafia era de criança, a mesma caligrafia que estava presente na câmara secreta no grande relógio Big Ben. Numa cama estava um livro. Peguei nele, soprei para tirar o pó, algum, outro tive que empurrá-lo, expulsá-lo de uma casa de tanto ano, pelo que tudo parecia, e o título era “A Bola de Sabão”. Abri a capa do livro e estava escrito, com a mesma caligrafia que tinha a letra das fotografias, livro de Andreia. Eu finalmente tinha encontrado tudo, aquela era a casa dos pais de Lady Oska, aquela senhora, menina, na fotografia, Andreia, é Lady Oska, como ela disse na carta, teve que deixar tudo para traz, até o seu próprio nome, o seu nome agora seria, depois da guerra, Andreia Lady Oska. Tudo estava explicado, melhor, nem tudo, faltava explicar quem era aquele senhor, Jorge. Levei a fotografia dos dois irmãos e o livro para Lisboa, onde expliquei a história ao meu amor. Estivemos algum tempo parados nas investigações para ver se ele voltava a andar e a pôr-se bom.
Quando curado, levantou-se, tomou banho, vestiu-se, Muito bem querida, obrigado por tudo, mas agora já posso continuar a escrever a história, posso, Claro que sim meu amor. Bem como dizia minha querida namorada, eu estava curado depois de algum tempo no hospital, que inferno que passei, mas vamos avançar a história que se está a fazer tarde, vesti-me e saí. Durante o tempo em que estive no hospital, o mesmo tempo em que Cristina esteve encarregue do “assunto” de Lady Oska, ainda bem que não lhe aconteceu nada de mal, eu também não estive parado, procurei todo o tipo de informação válida sobre Lady Oska, esta que eu depois juntei à informação que Cristina me fornecera. Telefonei ao senhor Jorge de Andrade, Estou sim, respondeu-me o senhor, Estou, Jorge é o senhor, Sou sim porquê, o que aconteceu, Nada, nada, apenas preciso de me encontrar consigo rapidamente, já estou curado e de volto ao trabalho, eu sei que o senhor conhece muito bem a senhora Lady Oska, preciso de falar consigo o mais depressa possível, Muito bem, onde nos podemos encontrar, No bar do hotel. Assim ficou combinado e assim foi, Bom dia senhor Jorge, Bom dia, O que desejam senhores, Um martini, por favor, disse Andrade, E o senhor, perguntou-me o empregado, já não era o mesmo, o outro que estava aqui enquanto eu estava hospedado devia de estar de férias, ah é verdade tinha-me esquecido de afirmar, eu afinal, depois de sair do hospital, fui para casa de minha amada Cristina, ela tomou conta de mim, Quero um água natural por favor, obrigado, Então o que precisava de falar comigo, Não precisava, preciso, abro a garrafa e engulo um gole de água, Jorge um gole de martini, Cristina foi a casa de Lady Oska, Foi, como é que ela conseguiu entrar, eles não deixavam ninguém entrar, nem a mim quanto mais à Cristina, Acalme-se senhor Andrade, diga-me uma cousa, o senhor conhece uma menina chamada Andreia, Não, disse atrapalhado, Vá lá senhor Andrade, conte-me a verdade, Mas eu não conheço ninguém com esse nome, Muito bem, eu vou dizer o que penso, acho que já nos conhecemos muito bem para que o senhor possa dizer se esta minha catarse está ou não correcta, por favor, eu imploro, Muito bem, disse ele num tom de apostador, Muito bem, aqui vai, Andreia nasceu no centro do país com os seus pais e irmão a viver com ela, segundo sei, irmão gémeo, mas semelhanças nenhumas, mostrei-lhe a fotografia, depois de a guerra começar a família teve que se movimentar para o sul de Portugal para conseguir fugir a tal horrível cousa, conseguiram viver em paz durante alguns anos, até os meninos terem dezasseis anos de idade, foi quando a guerra chegou também ao sul, o rapaz alistou-se na guerra para acabar com esta o mais depressa possível mas a menina fugiu para Londres, Andreia passaria a ser londrina, deixou a família para traz, assim como o seu nome Andreia, e passou a ser chamada, depois de casar, de Lady Oska, esta aprendeu a escrever na terra, no sul, e assim tinha o seu cantinho, uma câmara secreta que seu irmão gémeo conhece muito bem, como as palmas da sua mão, ela escondia-se lá para se encontrar com ele durante a guerra, ela tentava escrever o livro que gostava mais, ou o seu único livro, mostrei a Jorge de Andrade o livro “A Bolha de Sabão”, e, segundo sei, muitos anos depois, pobre rapariga, a Andreia aparece morta nos pés do Big Ben, ficou sempre um grande mistério, quem matou Lady Oska, mas agora eu tenho um mistério maior, quem escreveu a carta assinada por Lady Oska para os seus netos, melhor, dois mistérios, e quem é seu irmão. Jorge de Andrade já estava suando que nem um cavalo, e já tinha acabado o segundo copo de martini, Estou a acertar senhor Jorge, Segundo o que se diz de Andreia, Lady Oska digo, sim, Então vou prosseguir, durante a guerra, o sue irmão conseguia arranjar maneira de ir ver a irmã, Andreia, a Londres, soube que ela esteve grávida três vezes, duas das quais nasceram dois rapazes, o outro que desapareceu do mapa, segundo imagino o terceiro bebé foi trazido para Portugal pelo irmão, pelo tio do bebé, este criou-o como próprio filho, depois, o filho de Lady Oska, aquele que fora abandonado segundo ordens do padrasto, já crescido, casou com alguém e teve um bebé e foi então que o tio lhe contou toda a verdade, que lhe contou que a sua mãe é Lady Oska, segundo também sei, a mulher do filho ilegítimo de Lady Oska morrera e talvez tenha sido por uma depressão que este regressou a Londres para confrontar a mãe, deixando o tio sozinho. Andrade já engolia em seco, Continuo certo, Pelos vistos, Posso continuar, Se-se-seguramente, Muito bem, o filho de Lady Oska chegou a Londres e foi falar com a mãe, quando ela soube que o seu querido filho estava em Londres, ela não hesitou em sair para ir ter com ele, qual é a mãe no seu perfeito juízo que não hesita por ver um filho, todas, penso eu, eles falaram nessa noite, e, pela primeira vez, Lady Oska, ou Andreia, viu o seu neto, filho de Diogo, se não me engano, Diogo, filho de Lady Oska, falou com a mãe na noite antes de ela ser assassinada. Andrade gracejava como um ganso no pensamento para me tentar ignorar, Diogo falou com Lady Oska e no dia seguinte ela aparece morta, outra cousa que aconteceu foi que este Diogo, filho de Lady Oska, foi o ser que investigou a morte da mãe, aquele que depois de tudo teve dois filhos em Veneza, o mais velho dizia que houve um dilúvio em Londres, agora surge-me outra pergunta, o que aconteceu ao filho mais velho do senhor, não ao do dilúvio, mas ao outro e porque é que Diogo estava a investigar a morte da mãe sem sequer se lembrar quem ela era, agora diga-me você, Jorge de Andrade, irmão gémeo de Andreia de Andrade, ser que criou o sobrinho como filho, que disse a verdade ao sobrinho, que a mãe era Lady Oska, Não posso acreditar, O que se passa Jorge, Sim, você está correcto, eu sou irmão de Lady Oska.
Pelos vistos eu tinha acertado em tudo, mas estava na hora de Jorge de Andrade me contar toda a verdade, a que eu não sabia é certo, Ok, senhor Jorge, agora conte-me o que eu não sei, vamos por passou pode ser, Pode, Quem escreveu a carta a Carllos  Florbela a dizer que tinham outro tio, Fui eu, Sabia que a sua irmã estaria falecida, Sim, achei que seria hora de todos saberem, O que aconteceu no dia em que Lady Oska falecera, perguntei eu, Diogo telefonou-me para ir tomar conta do bebé enquanto ele iria tomar chá com a mãe para pôr a conversa em dia, enquanto eles estiveram fora eu escrevi a carta a Carllos e Florbela, deixei-a na nossa câmara secreta, Lady Oska levou-a para casa para ler e, quando o fez, saiu a chorar, eu tinha já deixado o bebé aos cuidados de Diogo e tinha-me ausentado para a câmara secreta no Big Ben, ela então chegara, e disse-me “Meu irmão, Jorge, porque queres fazer isto, porque queres arruinar a vida de todos, agora que estou a começar tudo com Diogo meu filho, Eu sei minha irmã, Andreia, mas está na altura da mentira ser desvendada, a verdade está escondia à muitos anos”, Então foi assim que Carllos e Florbela descobriram a carta em cima da cama da Lady Oska, o que aconteceu depois senhor Andrade, Ela saiu a chorar para o topo do Big Ben, por um caminho secreto que só nós dois sabemos qual é, chegámos os dois ao cocuruto do relógio, “Jorge, porque queres arruinar tudo, Andreia eu percebo-te perfeitamente, mas está na hora da mentira acabar, Não”, e sentou-se a chorar, eu abracei-a, quando a choradeira acabou, ela disse, Amo-te meu irmão, até um dia, e saltou, eu consegui agarrar-lhe o braço para que ela não caísse, “Meu irmão, por favor liberta-me desta corrente de mentira, estas memórias são demasiado dolorosas para todos nós, por favor, Jorge liberta-me desta corrente de memórias, Andreia não o vou fazer, eu amo-te minha irmã, Eu também te amo meu irmão, até um dia”, foi então que ela despiu o casaco e caiu no chão de Londres, Foi assim que faleceu Lady Oska, Sim Lady Oska morreu ali, mas Andreia continua viva dentro de todo nós, de mim, de ti, de todos nós, Uou agora escapou-me algo, ela suicidou-se e você diz que ela está dentro de mim, Vai à nossa câmara secreta que eu sei que descobrirás o que deves descobrir, mas cuidado que a mãe de Diogo tinha muito cuidado com as pistas. Assim foi, separamo-nos, dissemos adeus um ao outro, mal eu sabia quem ele era, Jorge de Andrade, irmão de Andreia de Andrade, Lady Oska. Agora restam poucos mistérios por desvendar, mas o maior de todos, pelo menos para mim, foi o que Carllos me disse, “Descobre quem matou a minha avó que tu descobrirás o teu passado”, falta o meu passado então, telefonei para o aeroporto e mandei guardar dois bilhetes de avião para Londres, um para mim e um para Cristina. Allons-y.
Chegou a hora de saber toda a verdade, tínhamos chegado a Londres, minha terra natal, aquela que abandonara já há um ano, se não mais, ou menos, mas nada mudara, a chuva continuava a perseguir-me nesta ilha, como se quisesse dizer, Chô, tu não pertences aqui, como se fosse possível a chuva falar, ironia do destino, ainda bem que o tempo que estive em Portugal pouca foi chuva que me molhou, tirando aquele dia em que, espera lá, é verdade, quem é esse homem, o homem que me espancou, nunca mais soube nada dele, nunca mais apareceu. O telefone então tocou, Estou, Sou eu, Andrade, Olá senhor Jorge o que se passa, Acho que deve saber mais qualquer coisa, não estou feliz por não ter conseguido segurar minha irmã, e culpei meu filho, digo, sobrinho por ter ido atrás da mãe, mas agora sei que a culpa foi minha, mas o que está feito feito está e não pode ser mudado, O que é que o senhor fez depois de ter a sua irmã falecido, Eu escrevi uma carta, está na câmara secreta, use os espelhos para ver o caminho até ao topo do Big Ben, aí encontrará o que precisa, Obrigado, já viste Cristina, isto cada vez anda com mais mistérios, Sabes uma coisa, o que é o dia L, Dia L foi como o povo decidiu chamar ao infeliz dia em que Lady Oska falecera, Sabes que dia é hoje, Nem por isso, não tenho andado muito atento aos dias, faz hoje vinte e quatro anos que Lady Oska, Andreia, perdeu a vida, Não me lembro de nada de ouvir a notícia, O que eu acho mais engraçado é que tu tens vinte e cinco, Coincidência, já viste se agora descobríssemos que tu eras o filho de Diogo, o neto aclamado de Lady Oska, Isso seria de dar gargalhadas de riso, ou de maluquice, mas vamos lá para a câmara. Assim foi, caminhámos até ao Big Ben, Cristina ficou de fora para ver se ninguém reparava em algo ou se ninguém suspeitava de nada.
Entrei, sentei-me na cadeira, olhei para cima, para o topo do Big Ben, apenas via as rodas dentadas a rasgarem o vento destro de suas bocas, as suas mãos a cozerem o próprio tempo para fazerem tudo correcto. Levantei um espelho e fiz exactamente o que Cristina fez à algum tempo atrás e, assim, a sala ficou toda iluminada mas, algo não estava igual de quando esteve a Cristina, algo debaixo da cama brilhava, era uma chave, mas não havia fechadura na câmara do Big Ben. Foi então que me lembrei de fazer a luz com os espelhos para ver se alguma fechadura aparecia, algo que Jorge de Andrade me tinha dado a ideia de fazer, levantei o espelho de Lady Oska, a luz, pouca graças às nuvens de chuva imensa, penetrou neste e reflectiu-se segundo um ângulo que não vou descrever para ir embater noutro espelho e fazer o mesmo para outro, e para outro, mas que cousa estranha, entre a cama e a parede do lado esquerdo apareceu uma fechadura. Enfiei a chave e abri uma porta que era feita do mesmo vidro que era o tecto e a parede frontal, do outro lado da porta tinha umas escadas, era aquele o caminho que dava ao topo de Londres. Chamei a Cristina para vir comigo, mas passámos a porta de cristal, a porta se fechou, por nossas mãos, e a escada foi subida, por nossos pés e corpos. Chegando a uma outra sala, esta cheia de cartas e notícias, tudo arrumadinho como quando se entrei numa estação de correios, como quando apenas queremos encontrar algo é só procurar pela ordem correcta, Jorge de Andrade disse que eu encontraria o que precisava aqui, espera lá, estão três cartas por cima desta mesa, sem estarem arrumadas, peguei na primeira, vamos lá ver o que esta diz “Está um belo dia hoje, recebi uma carta de meu irmão Jorge a dizer que meu filho está de perfeita saúde, casado e que tinha acabado de ter um netinho. Só mandamos cartas um ao outro e por isso é normal que aconteça muita cousa durante esse tempo pois, na mesma carta, no final, este diz-me que a minha nora faleceu no mesmo mês em que nascera o bebé, que pena, gostava de ter conhecido a afortunada que deu mais ao meu filho do que eu, Amor”, parece uma catarsezita, peguei na segunda e também a li “Hoje recebi uma surpresa, um senhor veio falar comigo, disse que se chamava Diogo e que tinha vivido com um pai-tio, foi então que eu finalmente vi, mais uma vez, o meu querido filho, Diogo Oska, bem de Oska ele não tem nada, ele não é filho do pai Oska, este sim é português, Diogo de Andrade, filho de Andreia de Andrade e um senhor que passara, agora que vejo isso parece muito mau, mas na altura não pareceu, enfim o amor faz loucuras, mas o amor teve que ser escondido, vim aqui esta noite escrever esta carta porque fiquei felicíssima por reconhecer o meu filho e conhecer meu neto, tão belo, igual ao pai quando nascera, Diogo. Eu e o meu filho combinamos encontrarmo-nos amanhã aqui num café perto, só espero que nada mude, ou se altere, agora.”, pelos vistos aquilo que Lady Oska mais temia acabou por acontecer, acho que ela nunca chegou a tomar chá com o filho bastardo, será que esta última carta é a carta de Jorge de Andrade, espero que sim, peguei também nesta e abri-a, “Meu Deus, o que eu acabei de fazer, acabei de matar minha irmã, eu apenas queria que a verdade não continuasse uma mentira, eu apenas queria que tudo voltasse aos tempos de criança, em que dois irmãos falavam bem, brincavam e tudo estava bem, mas pelos vistos a fúria de Lady Oska era demasiada, com muita pena minha, a verdade tinha que ser desvendada, e agora eu já não podia regressar, a carta está na mansão dos Oska e ninguém lá entra sem a autorização prévia de algum familiar. Acabei de cometer uma desgraça depois de ter cometido outra, mal saí do topo do relógio eu cheguei cá abaixo, ninguém estava, as ruas estavam desertas, e qual não foi o meu espanto em ver a pessoa que tudo tinha modificado, Diogo de Andrade, o que estava ele ali a fazer, o que interessa é que ele viu a mãe, morta, estonteante no chão de Londres, a chover, parecia que os deuses estavam contra a sua morte e contra mim por a ter deixado falecer assim, o pior foi o que fiz depois.”
Ok, as cartas chegaram ao fim, as outras eram só cousas de saudades do filho e da família e do passado, e conversas sobre o futuro, nada de mais. Dirigi-me, desta vez sozinho, Cristina fora às compras, às suas “recordações”, à mansão Oska, Boa tarde, o que deseja, Boa tarde, eu desejo falar com Carllos e Florbela Oska, soube que eles regressaram à pouco tempo, a Londres, de Portugal, Muito bem, pode entrar. Assim foi entrei, que grande mansão, mas não valia a pena dizer nada, todo o luxo, todo o sacrifício, todo o Amor, tudo falecera ao mesmo tempo que Lady Oska perdera a vida, foi então que cheguei a porta da sala de reuniões. Bati à porta, ninguém me respondeu, voltei a bater, nada, à terceira é de vez, para o empregado me deixar entrar é porque eles estão em casa, e para o mordomo me trazer a esta sala é porque é aqui que eles estão, este já se ausentara, decidi bater mais uma vez, senão estava na hora de arrombar a porta. Nock Nock, nada, Acabou-se, vou arrombar a porta, assim foi, como eu o disse assim o fiz, mandei-me contra a porta, mas esta estava aberta então eu só fiz força para me mandar ao chão, que queda, ainda me doem as costas do meus olhos, levantei a cabeça e vi, no chão, cheios de sangue e de podridão os corpos dos netos de Lady Oska, Carllos e Florbela Oska, uma carta por cima da mesa, da secretária, Para Carllos e Florbela, De Jorge de Andrade, “Olá, eu sabia que tu irias ler esta carta, por esta altura já deves de ter encontrado os corpos de dois dos meus meios sobrinhos, sabes uma coisa, eu sei quem tu és e porque foste para o orfanato, depois de eu sair da câmara do Big Ben, encontrei Diogo, foi então que ele chorava, eu estava farto daquilo e pensava que era ele o culpado de tudo, levei-o para casa, uma casa perto de uma estação da polícia, e lá, dei-lhe uma pedrada na cabeça, não sangrou, mas segundo sei, deve de ter perdido a memória, nunca se lembrou de ter conhecido a mãe, nem mesmo a mim, nem o filho quanto mais, só se reconhecia como o senhor que iria passar férias a Paris, onde ele ouviu a notícia da morte da sua mãe, ganda padrada agora digo eu num tom de gozo, eu sei que o que fiz não se pode repetir, é por isso que se de cortar o mal pela raiz,” e a carta continua, eu li-a toda, mas estava na altura de voltar ao hotel.
Entrei no quarto de hotel, depois de dizer aos empregados como tinha encontrado Carllos e Florbella Oska, e vi Cristina sentada na cama à minha espera, contei-lhe tudo, Sabes uma cousa Cristina, Carllos e Florbela estavam mortos quando lá cheguei, Que pena, assim eles não te podem dizer o porquê de terem começado tudo, Não é preciso, Jorge de Andrade contou-me tudo por eles, sabes uma coisa, eu sou eu, finalmente descobri quem sou, depois de Diogo perde a memória e de não reconhecer o próprio filho Jorge de Andrade levou o bebé para um orfanato, porque não queria que tudo se voltasse a repetir, eu sou esse, eu sou esse bebé, sou filho de Diogo, Neto de Lady Oska, neto de Andreia de Andrade, Então quer dizer que…
E foi assim que eu descobri o meu passado, mas os destinatários desta carta já não estão presentes por isso já não faz sentido continuar a escrevê-la, Jorge de Andrade fora encontrado como morto, no rio de Londres, assassinou-se, eu tive um pai, mas que não se lembrava de mim, tive um irmão a quem chamaram de louco por dizerem que havia um dilúvio, só tenho mais uma coisa a fazer. Telefonei a uma pessoa, ao meu meio-irmão mais novo, ao irmão que se salvou ao dilúvio segundo este e meu outro meio-irmão, a verdade é que ele é o mais novo e depois de tudo, testes de ADN e de tudo, estava comprovado, ele era o única pessoa restante da família, a única pessoa que poderia continuar com os negócios da família Oska, bem eu não sei o que aconteceu, não muito bem, só sei que ele conseguiu pôr tudo nos eixos, as pessoas começaram a reacreditar na empresa, a reapreciar os actos de meu irmão mais novo, tenho uma avó morta, um pai, um irmão e, agora também, um tio-avô falecido. Só restam dois agora, eu e o meu meio-irmão mais novo, ele ficou a tomar conta da empresa.
Eu? Bem, eu fiquei com Cristina, agora que sei toda a verdade, não sei se terá sido a melhor opção, só de pensar que tudo o que me aconteceu não era coincidência, eu fui violado pelo meu próprio tio, agora que sei até acho que tem a sua própria graça. Enfim.
A única cousa que posso agora dizer, é que concluí que falo bem português porque, bem, eu sou português, a única cousa ainda não explicada, mas a carta está a terminar, estou a ficar sem tinta aqui, é o porquê de dizer cousa, tal como Andreia de Andrade, minha avó e Lady Oska.
Bom dia…Boa tarde…Boa noite…Enfim, Allons-y digo eu a Cristina.

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